Opúsculo de um Vencido

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Elas por Elas...

Ó Padre, me ajude!... Estou perdida!...
Pois ontem tive outro sonho estranho,
Sonhei que por um Anjo era fodida
Enquanto estava eu, tomando banho!...

- Ó Pai, mais que história pervertida!
Acalme-se querida, ou eu me acanho...
Venha ao confessionário, é a sua saída
Pra que Deus não a exclua do rebanho...

- Agora sim, bebamos um bom vinho,
Com ele, o teu corpo, enfim, sossega,
E, assim, exorcizamos esse Anjinho!...

- Mas que é isso, Padre, esse esfrega?!...
- Relaxe e só me chupe com carinho,
O Vinho ao menos é de boa adega!...

(Queiroz Filho)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pêsame

Essa Dor que a tu’Alma desaninha
E o pranto que a retina te sacode,
Ante a mágoa que o seio teu definha,
Meu amor que é todo teu e nada pode,

Senão chorar contigo, ó Irmãzinha!
Pois de tal mal só Deus é que te acode
E que de muda, triste e pobrezinha,
Venturosa a fará numa infinda Ode!

Que viva no celeste véu d'outrora,
Transporá as alcovas da memória,
Onde a Saudade tua, sem demora

Gozará da lembrança a afável glória,
Pois todo coração uma ausência chora,
Mas só o vero Amor excede a estória!...

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Inocência

Nas várias superfícies de tua alma
Reluz o brilho algente das estrelas,
E eu que aspiro tanto envolvê-las
Tão só para iludir-me dessa calma

Que no teu vago olhar ora cintila
já irradiando Luz nos movimentos,
Sem que a agonia fria dos conventos
Venha com seus agouros oprimi-la.

Eu invejo essa excêntrica alegria
Das Almas como a tua, inocentes,
Que não levam na boca a aleivosia

Dos desgraçados seres decadentes,
Que crêem que uma queixosa poesia
Pode despir-te em lágrimas ardentes...

(Queiroz Filho)

Instinto

Este choroso filho que me espera
No histérico atavismo embrionário,
É um bárbaro clamor involuntário
Que desta consciência se apodera.

Porém, suas mandíbulas de fera,
Não rasgarão um ventre solidário,
Pois me será só o astro imaginário
Lá a circundar a vasta atmosfera.

Nas ilusões austeras, instintivas,
Das homogenias formas primitivas
Que o Quântico mistério reproduz.

Num paralelo espaço insondável,
Jazendo ao calabouço impenetrável
Aonde as Almas cruas não têm luz!...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Receita Indigesta

Se queres o amor de uma mulher,
Antes de tudo, amigo, te aconselho:
Jamais a elogies frente ao espelho,
Pois ouvirás aquilo que não quer...

Aceites qualquer queixa que vier,
Repares se o seu salto é vermelho,
E só mintas que sonhas cum fedelho
Se em sua cama o teu sono couber...

A calma é teu guia na conquista
Da alvissareira Musa requestada,
Um vago olhar, eia! É uma pista

Que a guerra esta quase acabada,
Só restará dizer que és um golpista
E que na vida tu não vales nada!...

(Queiroz Filho

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Evocação*

Vens-me espectro das noites sombrias,
Vagando aos lares pútridos do mundo,
Dá-me do Éden dos porcos, honrarias
E das trevas, o poço mais profundo...

Vens-me espectro das sombrias noites,
De Epilépticas e lúgubres orgias,
Sob a Dor de flagelantes açoites
Devasse dos fétidos mortos as heregias

Quão ao transe de roucos ares, vagas,
O! Minha Egéria fúnebre d’amor fecundo,
Imune as terrestres e funestas pragas

Que habitam este meu ser moribundo,
Ao elo, guiando-me tuas gementes chagas,
De nossas carcaças, neste antro imundo...

(Queiroz Filho) * Soneto de métrica irregular, mas o único, até, então, que me rendeu um prêmio simbólico em dinheiro.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Delírio Vago

Nos meus vagos fetiches delirantes
Cá eu vejo-te tão nua e sem pudores,
Mirando estes teus seios tentadores
Em meus rixosos lábios tremulantes.

E no gozo ilusório desse instante,
Nós somos até mais que pecadores,
Nós somos a discórdia dos amores
Num retrato caído sobre a estante...

Talvez eu seja mais outro covarde,
Ou o louco que saiu de um hospício
Somente pra colher flores na tarde!...

Já não sei distinguir gosto de vicio...
Oh! Náufrago perdido nesse mar (de)
Estúpidas paixões sem fim e início!...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Geração

Oh! Minha bela e áurea geração,
Que de tantos bastardos literários
Está caduca e cega em sua missão,
Lambendo o cu de vis adversários

Que ardilosos roubam-nos o pão
A nos deixar com cara de otários,
Ao ver o mensalão de mão em mão
Pairando lá em bolsos salafrários!...

E a juventude sussa e bem de boa,
Vai entoando um Funk pancadão,
Enquanto nem demônio ou garoa

A vibe louca, abalam, do irmão,
Pois toda a menisquência se esboroa,
Quando vem o domingo do Faustão!...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Mediocre Versibus

Estes medíocres versos que te faço
Não rasgarão o véu de tuas retinas,
Nem deitarão em tuas mãos divinas
Os risos meus de empírico palhaço!

Mas sinto-te em mim a cada passo,
Que volto o olhar às lôbregas ruínas
Do amor que feneceu pelas esquinas
Na súplica de algum simples abraço.

E a cada hora finda, aqui, eu penso
Nesta saudade cega, nesta dor enorme,
Que me puseram, pelo ar, suspenso,

Onde numa nuvem bela, multiforme,
Sorvendo os ecos teus eu me convenço
Que a minha Paz na tua Alma dorme...

(Queiroz Filho)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Escuridão

Na escuridão profana me arrasto,
Fitando o Céu na rútila distância,
E a sós lamento a acre ignorância
De que meu viço já se sente gasto...

Das trevas, já exalo o odor nefasto...
Ó, pútridas misérias da arrogância!
Dizei-me de que é feita a substância
Que fez gerar o Deus altivo e casto?...

Quisera ter no âmago a Esperança
Dos seus filhos mais retos cuja Fé
Eleva-se lá ao Céu e imensa avança

Desde as longínquas proles de Noé,
Mas logo alguma dúvida me alcança -
Onde que Deus está?... Quem Ele é?...


( Queiroz Filho )

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Homens e Cargas

Pensar que ao coração tu me sentias,
Quão os meus leves lábios osculavas
E os meus mimosos seios desejavas,
Tornou-me a ilusão de infaustos dias...

Sempre a dar-te o que não merecias,
Ignorando o odor de outras escravas,
Calando em mim a dor de mil aljavas!
Eu fui Mulher das negras profecias...

E se inda esta moléstia me tortura
Com lágrimas incrédulas e amargas,
É que não há em mim a tal bravura

De homens como tu de fuças largas,
Que andam a devastar tant'Alma pura
E inda assim tratá-las como cargas!...

(Laura Alves Coimbra)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Espera

Espero-te nos sonhos de ternura
Que cozo no silencio da saudade,
Enquanto a madrasta ansiedade
O meu peito devora com tortura.

Mas o Amor de simples criatura
Que rege a voz da fé e da verdade,
É o que me ofertará na Liberdade
Os lábios teus de mágica candura.

Pois nosso amor sadio se resume
Nas flóreas asas dessa alta canção,
Estremecendo a alma feito o lume

Ardente, que cerceia uma solidão
Sem cor, sem vida, forma e volume,
Mas que nunca nos sai do coração...

(laura Alves Coimbra)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Faz de Conta

Um dia me disseste envaidecida
Do nosso benfazejo faz de conta,
Dizias: - Como a vida nos apronta!...
Queria ser-te espelho nessa vida!...

E aqui com minha voz arrefecida
Pela ilusão que tanto nos afronta,
Te disse: - Menininha, és uma tonta
Em me dizer tal estória descabida!

Pois a minha imagem se sustenta
Na escuridão que ora a convalesce
De uma ânsia vil que só aumenta

A dor que o meu espírito embrutece
E quem de refleti-la, aqui se inventa,
Do amor dos infelizes, enlouquece...

13/05/11 ( Queiroz Filho )

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Deusa Morta

No coração de todas as Mulheres
Crepita algum mistério insondável,
Mas tu, pacóvio moço, não esperes
Vencer-lhe o régio fogo formidável

Pois ele jaz ao cofre impenetrável
Da mística opulência dos prazeres...
A todo o amor, inútil é tu sofreres
Se o etéreo bem é sonho fatigável!...

Acalma-te nos braços dessa Amante
Que a tua solidão sempre conforta,
E aos teus deslizes vive irrelevante

E nem de outros carinhos te aborta,
Que amar uma só mulher e ser constante,
É como que adorar uma Deusa morta...

(Queiroz Filho)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Paixão sagrada

Em uma dessas noites tenebrosas,
Repletas de mistérios assombrosos,
Os meus ouvidos muito pressurosos,
Fecharam-se às injúrias escabrosas

Daquelas pobres vidas lastimosas,
Que ante os desesperos venenosos
De seus dois corações impetuosos,
Calaram das razões mais invejosas

As perturbantes vozes renitentes,
E naquela insondável madrugada
O amor de suas almas indulgentes

Alçou-se como uma estrela alada
Ao céu dos almos seres penitentes,
Até tornar-se pó... Paixão sagrada...

(Queiroz Filho)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Lubricidade


Prostrados neste leito formidável,
Tomados de luxúrias inclementes,
Oferto-te os meus beijos ardentes
E este Desejo altivo e incansável...

Pois tu és o meu delírio inegável,
E a minha fome insana e insolente,
Ou toda a sensação inconsequente
Vivida em meu ciúme miserável...

E ao ver-te já exausta sobre a cama
Eu noto o teu olhar qu'inda me chama
Com trêmulos ardores incontidos...

E, eu, que ao teu carinho irrestrito
Sou chuva inabalável... Sou granito!...
Esparjo-me em teus seios incendidos...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 26 de abril de 2011

Desapego

Se tu, um dia, Nise, te enfadares
De todo o ardor de meus carinhos,
E quereres seguir outros caminhos,
Não incriminarei os meus azares...

É mister que aspires novos ares,
Amor não vivi só de velhos ninhos!...
Carece se ferir em outros espinhos
E o seu culto erigir noutros altares...

Assim, de mim, de ti, eu te liberto,
Tu podes ser feliz quando quiseres!
Há muito desse fim já estava certo....

Não sei se amarei outras mulheres,
Mas ouças a verdade que te oferto:
- Me fartarei do pouco que me deres...

26/04/11.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Eleita

De que vaga Atlantis tu vinheste
Tal como uma sedutora Feiticeira,
Furtar de mim a mágoa derradeira
Despindo-me aqui veste por veste?...

Tua pureza é a mesma de Alceste
Que ao marido se dera por inteira,
Da Morte arrostando a agoureira
E tenebrosa fronte, aonde a peste

A que todo o ser vivo se sujeita,
Sentira do bom filho de Alcmena,
A robustez mais grave e perfeita...

Mas eu que vivo uma vida amena
Tão só posso dizer-te: - És a eleita
De minha inspiração vã e serena...

19-04-11 Queiroz Filho

Momentos

Há momentos em minha vida
em que não quero estar só,
Mas todo o instante em que me olho à fundo
dentro de mim e ao meu redor, estou!
Quisera crer na vida, nos homens e na pureza
dos pequenos.

Mas não sou forte, não existo em mim
para ter ideia do que são os outros por dentro
e nas coisas em que deveria crer.
Como poderia, se eu nem me reconheço?
Se vivo do lado de fora de mim?
Sou rude e vulnerável como a noite...
Nada em minha alma falta ou excede,
Sou eu que sou miúdo demais para ela -
Uma veste interna onde sobram as mangas...
Dentro dela eu sou uma frágil nau, atenta à navegar,
Ou uma lebre a correr aturdidamente
dos vendavais que lhe persegue,
( ao menos isto me resta)
Ela sobra em mim, e eu, constantemente
falto à ela...

Por isso não amo aos outros quão deveria,
Por isso não me amo quão preferiria,
E o que está sempre comigo, algemado à minha angústia
é este silencio morno que me salta às costas!
Que dialoga com os meus sentidos...
Ah, como é maravilhoso e trágico ouvir o silencio!
Ele sim, é uma afável companhia,
Pois se abre e se fecha em nós como uma porta,
(Ou será que nós é quem somos a sua porta?...)
não me murmura conceitos,
não me estabelece regras,
não me rejeita a tristeza
e nem me beija com seus lábios impalpáveis!
( por mais que eu quisesse).
O silencio é a veste negra que recobre o amor
E os amantes – tolos! Não percebem que todo o amor
apenas carece do silencio dos olhos e da verdade que há neles.

Eu, quando amei, fui um tolo,
bradava essa alegria em meio aos pulos pelas ruas ermas
e ninguém, ninguém me ouvia, senão, os ouvidos feridos
do sapientíssimo silencio.
Que severamente, me dizia :
Esqueças os outros, esqueças o mundo!
eu que sou a tua externa consciência,
eu sou, oh! Iludível tolo,
o amor de todos os homens!...


19-04-11

(Queiroz Filho)

domingo, 17 de abril de 2011

Abandono

Ao apartar-me lá de ti, Querida,
Não contive est'Alma de tristeza
Pois deixaste-me só naquela lida,
Erguendo-te altares sem beleza...

Conquanto revivi o hausto da vida
Na fervorosa chama em mim acesa,
Óh, como me doera a atroz partida
Que esta vista ferira com rusteza!...

Mas se chamar-me ouço, voz airosa,
Pasmada, a face minha, se congela!
Crendo ser tua a prece langorosa

Que aqui mo diz: - Óh tolo, tagarela!
Acalmes, que também fora queixosa
Teus afagos clamar, ao peito dela...

( Queiroz Filho)

Sublimação

Quão estes olhos túmidos se vão
Perdidos lá na luz de tempos vagos,
Que ao firmamento giram em unção
Sob o calor, oh! Lívia, dos afagos

De teu amoroso e terno coração,
Que paga-me rancores nunca pagos
E inspira-me ao peito a devoção
Guiada à Jesus por três reis magos.

Pois sob aquela estrela de Belém
Estava o salvador dos Malfadados,
A quem tu'Alma santa, diz:- Amém!

Enquanto a ti eu digo aos bocados:
- Naceste não p'ra ser só um alguém,
Mas para dar a cura aos desgraçados!...

( Queiroz Filho)

À um Operário

O pouco de Política que entendo
Já basta p'ra saber que é só merda!
Quiçá, se mais soubesse, essa lerda
Razão, me estaria enlouquecendo.

E, agora, este soneto escrevendo
Sigo para esquecer de uma perda
Que não é da direita ou esquerda,
Mas desse proletário que sofrendo

Destratos do patrão, vil, ordinário,
Não faz de nenhum lado, distinção,
Só espera lá ansioso e temerário

O Deus que cessará tanta opressão,
Pois vês, Senhor, é dia do Operário
Que te entregou a Alma e o coração!...

( Queiroz Filho)

sábado, 16 de abril de 2011

Aos Moralistas

Nesta mente esdrúxula e exaurida
Aonde habitam todas as desgraças,
Tomada como os livros, pelas traças
E dos sublimes Sonhos, recolhida.

É donde extraio a tola Dor fingida
Bebendo a Razão em negras taças!...
Não cabe nessas lágrimas escassas
E nem em minha Alma emudecida

O brilho ostentador dos altruístas.
A vida me ensinou como os ingratos
Em ver na compulsão de idealistas

A fome de Hedônicas conquistas,
E tal como os rebentos de Pilatos,
Eu escarro no Altar dos moralistas...

( Queiroz Filho) 16-04-11

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Livramento

O teu brando Espírito me invade
E traz-me esse Desejo inquietante
De um Gozo benfazejo e ululante
Do Beijo com sabor de ansiedade!...

E a vida se transmuta na Saudade
De alguém que se amou tanto distante,
E o meu Sonho na Paz exorbitante
Requesta em tua boca a alacridade

Singela, que me cega a cada passo
E nisso Ele se basta e se completa,
Lançando os destroços do cansaço

Nas valas de uma incerteza abjeta,
Pois só em ti eu me salvo desse laço
Que fora em minha vida ser poeta...

( Queiroz Filho)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Irene

Tu que deixas o meu coração mole,
E de incontáveis cravos, perpassado...
Sem ver o quanto tenho suplicado
Para que esta paixão, enfim, se isole

Na mais remota parte inconsciente
Das vias de meu cérebro obscuro.
Desprezas um carinho terno e puro
Deste que inda por ti se vê doente?

Rejeitas meus exaustos galanteios
Enquanto te debochas bem solene,
Quando me contradigo dos receios

De minha adoração sempre perene?
Pois só não lhe cobiço os leves seios,
Mas da cabeça aos pés, desejo Irene!

( Queiroz Filho)

Meus Versos

Estes tais versos vãos e vis e vagos,
Que ao vazio tombam, tristemente,
Nunca hão de clarear uma só mente,
Tampouco inspirar os teus afagos...

Ouça-os, cá atento, pois são gagos
Como a dolosa voz do Amor ausente,
Que ferindo um peito descontente,
Fez aviltar a Dor de seus pressagos...

E destarte, ao desprezo, condenados,
Nesta masmorra cantam a dor ardente
Dos que jamais serão,por fim, amados,

Senão por quem ao peito ora os sente,
E em sua Alma os tem tão confinados,
Que os diz, sem os dizer, a toda gente!...

(Queiroz Filho)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Remorso

Se um dia, o remorso, tu sentisses
Que no meu coração já se propaga,
Por ter-te posto ao peito essa chaga
Que não poria a amada de Ulisses!...

E com o teu silencio me punisses
Nem inda, assim, Denise, será paga
A Dor que te causei, e não se apaga
Ainda que do céu, a sós, ouvisses

A voz de Deus dizendo-te: Ó Filha!
Mostrai ao teu verdugo a outra face,
Beijai com gozo o Lobo da matilha

E esqueçais a injuria desse enlace,
Pois todo o Injusto é uma vaga ilha,
E o sol para o infiel, caindo, nasce!...

( Queiroz Filho) 07-04-11

sábado, 2 de abril de 2011

Exclamação

Sob infindas desoras, vãs e mudas,
Cá, esperto-me, de súbito, já aflito,
Sentindo, à face, a aura do infinito
E aos ombros o pecado de um Judas

Que pari passu às almas vis e rudas,
Tapei o ouvido a quem me teve dito:
- Crede, ó perjuro, sou o Pai bendito
Que vos abranda as dores tão agudas!

Contudo, herege, atro e jocundo,
A alma lançastes ao inferno imundo,
Enquanto, tanto a vós, eu inquiria:

- Ó, apresai-vos, logo, ide, filho meu,
E vos rendais a quem por vós morreu
E, inda, assi, por vós, mais morreria...

(Queiroz Filho)

Paradoxo

Se esta ociosa vida inda perdura
Em perdurar a sina que eu carrego,
Na vista a sepultar a noite escura,
Como um vadio triste, vil e cego

Resignado ao claustro da amargura,
De todo o sonho vão, me desapego,
Pois se nem no amor eu vi ventura,
Que mais há a fazer? A vida entrego!...

Adeus, almos irmãos, adeus, ó, Musa,
Chorai, ó, doce Mãe, o filho vosso,
Que a aurora do pesar se fez intrusa

Ao sonho de amor que era só nosso,
E revelou-me a tal verdade intrusa:
- A Morte é negar o que não posso!...

(Queiroz Filho)

Fatalismo

Quando, amigos, desta vida eu for,
Verão vazio o rastro de meus passos,
E a minha alma cega e tão sem cor
Já não terá o calor dos teus abraços.

Que fadado ao silêncio e ao torpor,
Ninguém afagará meus olhos baços
E nem dirá, enfim, o que é o Amor
Para a agonia desses ermos laços...

À qual Musa darei meu verso findo?
E qual carregarei em meu coração?
E que amigo verei, lá conduzindo

Minha matéria inerte em um caixão?
E que sonhos terei quando sorrindo,
Souber que a vida é Dor, é Ilusão?!...

( Queiroz Filho )

Vita

Tu és formosa Vita, o fausto nume
Onde vates e santos cá se rendem,
Pois para se esparzir, ao céu, perfume,
Do verso de teu riso só dependem.

E quão de tua vista se desprendem
Esplendorosos astros de alto lume,
Raios de luz, o céu, ferindo fendem,
Que mais alvura dá ao vasto cume

Aonde cantam Musas e Amores
Com elevada voz ao Deus-pequeno,
Que lá a esperar-te com mil flores

Na destra traz a ceta e o veneno,
Que pode transformar vis pecadores
No Anjo que tu és, casto e ameno...

(Queiroz Filho)

Mãe

Acolhes-me,ó Mãe, só um instante
E apertes tua mão contra meu seio,
Acaso sentes como eu sou alheio
A tudo neste mundo inconstante?

Meu coração é um lírio flutuante,
Dentro da alma já partida ao meio,
Pois só em teu Amor ainda creio,
E choro a tua Mágoa agonizante...

Como me pesa à vida esta jornada,
De tanto sonho imoto e traiçoeiro,
Mas tu, só tu, oh, santa abençoada!

É que com estes olhos de cordeiro,
Farás deste rebento que foi nada,
Um homem justo, bravo e verdadeiro...

(Queiroz Filho) 19/7/2009

Elisa II

Ames-me hoje, Elisa, que és bela,
Pois o carinho meu não é de moço,
Que quer roê-la qual o cão, o osso,
Dizendo que teu espelho é tagarela

E o que vês fanada em alvoroço
É só de tua vaidade, a flor singela,
Que, logo, ao tolo anseio, se atrela
De ver fugir ao tempo, teu pescoço!...

Pois este mui ingrato e ledo viço,
Há de dizer-te adeus e dar sumiço
Co'a tua auspiciosa exuberância.

Para te convenceres, meiga infanta,
Que a velhice, tão-só, aquele, espanta
Que a vida não goza com ganância!...

(Queiroz Filho)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Palavras Doces

Tu que ofertaste a mim esse mistério,
Que se desbota em Sonhos de agonia,
Não vês na minha Alma o cemitério
Das Crenças que assassino à revelia?...

Não vês que esta onerosa aleivosia
De me embalar em teu beijo etéreo,
Sem que comigo estejas um só dia,
Sempre será um mero despautério?

Quem dera fosse eu, esquizofrênico
E a vil Joana D'arc, a mim, tu fosses!
Ou essa vida fosse um palco cênico

Onde os nossos monólogos e poses
Seriam como o mito mais Helênico:
- Eco e Narciso... Ó vãs palavras doces!...

( Queiroz Filho)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Lúcea

Se tu, ó bela Lúcea, enfim, me desses
O Almo Prazer, o Gozo, o Galardão
De ver que qual a mim te compadeces
Da angústia que assombra o coração!

Se a atroz ausência te não entristeces
E se este Amor é a ti uma vã ambição,
Perdoes este pérfido que em preces
Tanto implorou ao Céu esta visão!...

Visto que tu, ó terna e meiga infanta,
No oásis dos meus Sonhos elevada,
Se és coroada em tal Fortuna Santa...

É que esta alma triste e abandonada,
Co'a viva Esperança inda se espanta
De quiçá, um dia, tê-la como Amada.

( Queiroz Filho )

terça-feira, 29 de março de 2011

À Vida

Por quanto tempo tenho procurado alguém que me fizesse sentir ao peito a real brandura de um sentimento amoroso, que talvez seja a mais sincera nobreza de uma alma. Mas enquanto procurava, já demasiadamente extenuado de tal tarefa, segui, então, por puro oportunismo, ao encalço de outros sonhos, quiçá, menos nobres, alegando, assim, a minha impotecialidade humana por ser comumente similar àqueles que se dão por vencidos ao mínimo temor da vida.

Contudo, ao deparar-me com as gratas conquistas que ela em suma me ofertou, notei que estavam intrinsecamente ligadas, pois a vida é uma incomensurável partilha, não se pode almejar venturas sem antes visar aqueles com que há de partilhá-las, pois a vida é um milagre muito fabuloso para se gastar consigo mesmo.

E quando alguém cruza nosso caminho e faz de nossa imagem um espelho para si, convencemo-nos de que somos indivíduos dotados de razões e de incertezas e que estas incertezas nada mais são do que um instinto de cautela de onde se moldam as nossas indagações em busca de uma elevação inconsciente da qual todos nós nos submetemos.

Hoje, não mais me estagno na angústia do medo, antes dou meu peito a ralar na dor das consequências sem covardemente visar o grau de minhas possíveis derrotas, visto que o tempo é precioso demais para que nos demos ao luxo de pesá-las como se nos coubesse tomar aos anos uma única posição frente à vida, quando sabemos que cada segundo, ela arbitrariamente nos exige uma escolha para que não nos esquivemos de sua trajetória e nos deparemos com uma velhice mórbida e vazia onde as amargas convicções se tornarão o único e maldito legado de nossa infeliz consciência.

( Queiroz Filho )

Lirismo Embasbacado

Se em teu peito guardas um amor
Como disseste antes: - Vagabundo!
E tens um coração que deste mundo
É astro rei em todo seu esplendor.

É insanidade minha ou desfavor,
Querer de ti um sonho tão profundo,
Pois a avareza trago de um imundo,
E tu, da vida, levas, todo o ardor!...

Só tu sabes viver, só tu comprazes
O ser que se perdeu de seu caminho,
E que não a fez sentir em suas frases

A glória de gozar de um bom carinho,
Quando arfando aos teus beijos vorazes,
Na vida, enfim, deixou de ser sozinho...

(Queiroz Filho)

Laura

Não sei amar, ó Laura, tuas prendas
Como queres que eu, assim, as ame,
Amor, me não bradou um só reclame,
Nem fez surgir ao peito suas fendas...

E dantes que de mim te arrependas
Privar-te-ei de tais ânsias infames,
Pedindo que a mim tu não derrames
Este teu Casto pranto, só entendas

Que há muito tenho a voz esvaecida
De indagar se o Amor é um Paraíso
Ou o mais macabro Inferno dessa vida!...

E ora a lembrar o alvor de teu sorriso,
Prenunciando o Adeus da despedida,
Na Luz da minha Alma, te eternizo!...

( Queiroz Filho )

Resignação

Não te condeno pela indiferença
Que fatalmente tu me impuseste,
E se o meu Amor nunca quiseste
Não ouso tomar isso por ofensa.

Apenas me impus essa sentença
De não fitar mais tua cor Celeste,
Contigo eu não serei o cafajeste
Que cínico espera a recompensa

Pela sinceridade com que amei
Sem um só beijo ter de sua boca,
Senão o que em sonho te roubei...

E aqui resignado e de voz rouca
Da traiçoeira Paz, logo, ouvirei
A gargalhada farta, acerba e louca...

( Queiroz Filho )

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Breve Monólogo de Baltazá

Bão! Mo nomi é Baltazá,
Tenhu quinzi anu di fomi
I us memu quinzi di azá.
Moru num lugá sem nomi,
Tumbém, num tem qui nomi dá!
Memu assi cabi eu e mia mãe Maria
I u meu quirido pai Bast'ão;
Ah! Tô mi squicenu dus meu oit'irmão
I di mia irmanzia Sufia
Que tá c'os oto, trabaianu
I cum meu pai, lá num lixão.
Modi qu'eu, todus dia du anu
Vô cum mãe passiá na cidade
Pá modi vê si cunsiguimu ua caridade.
Só qui só vô pa vê a minina bunita.
Qui quando veju, o mo peitu, di filicidade
Abobádo, parpita, qui parpita!
I quandi orçu sua mãe falanu
U nomi pur dimai lindu nessa vida:-Nuelita!
I meu oio vão marejando
Dessa paxão, meu Deuizinho, tão bendita!
Qui já num mi guentu e choru.
Apois, creiu im Deus e a ele oru
Qui um dia hei di cum Nuelita casá!
I haveremu di tê memu ua casa:
A mai bunita, grandi i arta!
Pá modi noi doi ficá.
I pá sempri junto se amá
Qui nem doi santu, num artá...

( Queiroz Filho)

Maísa

Tu que abrandas as mágoas tardias
Deste meu frágil peito emurchecido;
Tu que dás vida, cor, Alma e sentido
À assombrosa nódoa de meus dias;

Tu que me és na vida o bom Messias
De quem anseio o abraço tão querido;
Tu que me surges qual o Amor banido
Pela indolência atroz das frases frias;

Tu que meus olhos ébrios, penitentes,
Replenas de um pranto alegre e vivo,
Bem sabes que estas dores indecentes

Que os ouvidos te gastam sem motivo,
Apenas são expressões inconsequentes
De quem, da tua vontade, está Cativo...

( Queiroz Filho )

Verás

Verás que me amaste, Amor, um dia
Quando em lúbrica Dor estremeceres,
Por já minhas lascivas mãos não teres
Para incendiar-te est'Alma fria.

Que nem sequer, ao menos, balbucia
Qual dantes um gemido, para creres
Que de meu longo afago, os prazeres
O alvo corpúsc'lo teu não carecia.

Mas se te enredas já a outro sujeito,
Enquanto a Outra chamo de Rainha,
É que sei que esse não fará bem feito...

Visto que sua boca mui mesquinha,
Nem mesmo tocará teu ardente peito,
Pois antes lhe dirás que és só minha...

( Queiroz Filho )

Tema Alienado

Em face ao passado me revejo,
E esboço o retrospecto da vida,
Que consequentemente diluída,
Foi-se na impotência do desejo.

E a simples razão a este ensejo
De redargüir a aurora preterida,
Na coesão dos fatos, presumida,
É o meu aniversário que festejo

Sozinho neste quarto duma figa!
Sem uma boca para o meu deleite,
E sem as coxas longas da amiga

Onde bem acolhido eu me deite,
E ela, se despindo, enfim, me diga:
- É este o teu presente, aproveite!...

(Queiroz Filho)

Do Novo Ano Novo

Desejo aos meus celebres amigos
Um ano de dois mil e onze massa!
Deixemos para trás toda a desgraça,
Pois se estreitam já outros perigos...

Mandemos ao Inferno os inimigos
Com cada traidor, deles, comparsa,
Saibamos que Politica e uma farsa
E que os novos algozes são antigos.

Findar-se-á a magoa do ano oposto
Veloz como em um passe de mágica,
E um novo ano novo a contragosto

Vira em meio a turba verborrágica,
Ate que a morte, por destino ou gosto
Venha exorar de nos a vida trágica...

15/01/2011. (Queiroz Filho)

Consciência Primitiva

Estes teus parcos Sonhos alvejados
Por máculas mais negras e malditas
Que a vida dos leprosos condenados
A escalavrar suas carnes tão aflitas

Das dores que em vão inda meditas,
Nada mais são que gozos adornados
Co`as presunçosas cores mais bonitas
Que até por porcos foram invejados!...

Oh! Valioso verme! Não, não exijas
Do Mundo, a atenção mais cobiçosa,
Transcendas à tua Ira tempestiva!

E em teu carrasco a tua dor corrijas,
Só assim verás a alcova assombrosa
Que é a nossa consciência primitiva...

(Queiroz Filho) 17/2/2011 06:11:44

Spiritus Junctus

Que angustiante falta tu me causas,
Não sei mais nesta vida ser sozinho,
Porque sem ti os dias são só pausas
Na espera pela Luz de teu carinho.

E nesta impaciência eu me definho
Nas tétricas visões de almas falsas,
Prostradas como eu no descaminho
Da inércia de que tu não te exalças...

Pois neste calabouço é onde habito,
E nele infaustas horas me extraviam
Esta ânsia de sorver bem do infinito

Os sonhos que de nós tanto sabiam,
E eram em minha vida um ledo rito,
Onde em teus olhos céus se erigiam...

(Queiroz Filho)

Soneto só para Cecília

Neste meu poeminha meia boca,
Sem frases de efeito ou arremate,
Em que o sono ressoa pela boca
E a inspiração molenga se debate.

Não acho o que de fato te retrate,
Ó, minha Cecilinha, bela e louca!...
Que esta solidão não me empate
E nem sequer o sono que apouca

A minha lucidez mais duvidosa,
Pois resistindo a tudo ora te digo
O que há nesta cuca preguiçosa:

- Desejo de comer à sós contigo
Porções dessa batata saborosa,
Ouvindo aquele rockzinho antigo!...

(Queiroz Filho) 19.03.2011

Ao Teu Nome

Poetisa é o que tu és, de corpo inteiro,
Pois o que o teu nome aqui nos diz
Não é o relato simples da aprendiz,
É algo mais completo e lisonjeiro.

Essência de um estro alvissareiro:
- Alma liberta ao Sol da tarde gris...
Alegres-me a vida e dê-me um Bis!
Lançando-me ao sono derradeiro...

Pois tu és a “Padroeira da canção”,
E, eu, não mais que o vago arremedo
Dum tolo ateu que vivi sem paixão...

De Amar a vida sempre tive medo,
Inda me mata a dor de ouvir um não,
Mas só por ti um riso me concedo...

( Queiroz Filho) 20/03/11 03:28 AM

O Nômade e a Mariposa

Por sobre um rochedo montesino
Um nômade sem Paz ali repousa,
Da vida nada espera e nada ousa,
Só quer é esquecer o seu destino.

Pois se sentindo já um assassino,
Por ter aniquilado uma mariposa,
E agora ao vê-la só e sem esposa,
Seu ódio exclamou em desatino:

-Senhor! Matei a Vossa criatura
Que mal nenhum a mim articulou,
Tomai a minha infinda amargura!

Pois minha pobre Alma se negou
De ver esta horrenda Desventura,
E há pouco do rochedo se lançou!...

( Queiroz Filho ) 23/03/2011

Elisa

Se ferido de amor, meu peito, sinto
Por ti Mulher quest`Alma enaltece,
Ó, Deus, quão hei dizê-lo?... Até parece
Que com astuta voz a todos, minto.

E já aos teus pés, prostrado de absinto,
Declaro-te o amor que me endoudece
E a cada passo, assim, inda mais cresce
Sob ânsias e desejos bem faminto!

Ó, vens, doce Elisa, incauta e bela
Atar teus rubros lábios cá aos meus
Que a chama do Amor não esfacela

A alma que se lança louca aos céus,
Pois lá o amor é a mais certa janela
Pra se alcançar a glória de um Deus!...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 22 de março de 2011

Ao Poeta Diego El khouri

Se este artificialismo convincente,
Que chamam de amor, os miseráveis,
Não fosse só a desculpa decadente
De vergonhosos medos deploráveis.

Quiçá inda quisesses ser contente,
Pois libertando instintos insanáveis,
Vertendo em todo corpo impertinente
Luxúrias quase não comensuráveis.

Os teus dias, Soldado, de embates
Com legiões de espectros chauvinistas,
Não mais seriam trágicos combates

Pois inda que furassem tuas vistas
E a tu'Alma cedesse aos desgastes,
Eu te daria a Fé dos bons Sofistas...

( Queiroz Filho ) -21.03.2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Confissões de um Poema Hipocondríaco

Tenho em mim uma terrível doença:
-Não sei me fazer em versos livres!
Sim!... Pasmem, senhores!
Juro pelo cético Itabirano
que não sei me fazer em versos livres!
O que conheço por liberdade em poesia
é o avesso do que outrem poderia me dizer...
Disse:-dizer... e não:-me dizer poderia...
Não façam de minha consciência
um hipérbato acuado!...

É a prisão da métrica que me faz sentir-se
livre!
Livre e iludivelmente poderoso!
Mas de quê e em que, ah!Não sei dizer-lhes.
Perguntem ao Manuel, não a mim!...
Talvez isso se dê devido a trágica verdade
de que este moço
que me olha neste exato momento
com indiferença e sisudez
sabe apenas lapidar-me em poesias para os olhos
e não para o coração.

Pois vejam:
-Tirem-lhe o metro,
(foram-se os braços)
-Tirem-lhe a rima,
(foram-se as pernas)
-Tirem-me dele - O seu amado cativeiro!
E irá se revelar atrás de si
Um homem triste, sem sabor.
Sem esqueleto que o sustente
e fatidicamente desnudo...
A rima, a saborosa rima
lhe serve como o bater de um coração
pausadamente vivo.

Como as outras doenças sociais da vida,
Como os cabrestos mais convencionais,
Ele ainda precisa do meu restrito gozo.
O verso livre é uma cidade sem esquinas,
A capital que se desprende de si própria
como um rio que desemboca para o mundo.
E o meu senhor, carece de um abismo,
apenas um abismo, não de um mundo!
Liberdade em excesso é uma prisão sem grades!
e o meu senhor, apenas roga à si
a minha pragmática paisagem
( meu céu de monótonas nuvens)
onde possa, esporadicamente, jogar-se
ao derradeiro suspiro de um verso
como um beijo no espelho:
- branco,
vago
e sem rimas...

( Queiroz Filho)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Depois do Fim...

Depois de um fim de ano auspicioso,
Em que trocamos o fragor dos fogos
Por um temor estranho e indecoroso,
A vida ora nos testa com seus jogos:

Enchentes abatendo sem clemência
As rudes casas postas sobre o morro,
Aniquilando sonhos pela ausência
Misericordiosa de um Socorro.

Catástrofe sem par, o caos reporta,
Crianças órfãs choram no enterro,
Rogando ao céu à sua mãe já morta!

Tal prematuro fim, quem o suporta?
De que vale reaver tamanho erro,
Se em suas vidas nada mais importa?

15/01/2011.