Opúsculo de um Vencido

quinta-feira, 31 de março de 2011

Lúcea

Se tu, ó bela Lúcea, enfim, me desses
O Almo Prazer, o Gozo, o Galardão
De ver que qual a mim te compadeces
Da angústia que assombra o coração!

Se a atroz ausência te não entristeces
E se este Amor é a ti uma vã ambição,
Perdoes este pérfido que em preces
Tanto implorou ao Céu esta visão!...

Visto que tu, ó terna e meiga infanta,
No oásis dos meus Sonhos elevada,
Se és coroada em tal Fortuna Santa...

É que esta alma triste e abandonada,
Co'a viva Esperança inda se espanta
De quiçá, um dia, tê-la como Amada.

( Queiroz Filho )

terça-feira, 29 de março de 2011

À Vida

Por quanto tempo tenho procurado alguém que me fizesse sentir ao peito a real brandura de um sentimento amoroso, que talvez seja a mais sincera nobreza de uma alma. Mas enquanto procurava, já demasiadamente extenuado de tal tarefa, segui, então, por puro oportunismo, ao encalço de outros sonhos, quiçá, menos nobres, alegando, assim, a minha impotecialidade humana por ser comumente similar àqueles que se dão por vencidos ao mínimo temor da vida.

Contudo, ao deparar-me com as gratas conquistas que ela em suma me ofertou, notei que estavam intrinsecamente ligadas, pois a vida é uma incomensurável partilha, não se pode almejar venturas sem antes visar aqueles com que há de partilhá-las, pois a vida é um milagre muito fabuloso para se gastar consigo mesmo.

E quando alguém cruza nosso caminho e faz de nossa imagem um espelho para si, convencemo-nos de que somos indivíduos dotados de razões e de incertezas e que estas incertezas nada mais são do que um instinto de cautela de onde se moldam as nossas indagações em busca de uma elevação inconsciente da qual todos nós nos submetemos.

Hoje, não mais me estagno na angústia do medo, antes dou meu peito a ralar na dor das consequências sem covardemente visar o grau de minhas possíveis derrotas, visto que o tempo é precioso demais para que nos demos ao luxo de pesá-las como se nos coubesse tomar aos anos uma única posição frente à vida, quando sabemos que cada segundo, ela arbitrariamente nos exige uma escolha para que não nos esquivemos de sua trajetória e nos deparemos com uma velhice mórbida e vazia onde as amargas convicções se tornarão o único e maldito legado de nossa infeliz consciência.

( Queiroz Filho )

Lirismo Embasbacado

Se em teu peito guardas um amor
Como disseste antes: - Vagabundo!
E tens um coração que deste mundo
É astro rei em todo seu esplendor.

É insanidade minha ou desfavor,
Querer de ti um sonho tão profundo,
Pois a avareza trago de um imundo,
E tu, da vida, levas, todo o ardor!...

Só tu sabes viver, só tu comprazes
O ser que se perdeu de seu caminho,
E que não a fez sentir em suas frases

A glória de gozar de um bom carinho,
Quando arfando aos teus beijos vorazes,
Na vida, enfim, deixou de ser sozinho...

(Queiroz Filho)

Laura

Não sei amar, ó Laura, tuas prendas
Como queres que eu, assim, as ame,
Amor, me não bradou um só reclame,
Nem fez surgir ao peito suas fendas...

E dantes que de mim te arrependas
Privar-te-ei de tais ânsias infames,
Pedindo que a mim tu não derrames
Este teu Casto pranto, só entendas

Que há muito tenho a voz esvaecida
De indagar se o Amor é um Paraíso
Ou o mais macabro Inferno dessa vida!...

E ora a lembrar o alvor de teu sorriso,
Prenunciando o Adeus da despedida,
Na Luz da minha Alma, te eternizo!...

( Queiroz Filho )

Resignação

Não te condeno pela indiferença
Que fatalmente tu me impuseste,
E se o meu Amor nunca quiseste
Não ouso tomar isso por ofensa.

Apenas me impus essa sentença
De não fitar mais tua cor Celeste,
Contigo eu não serei o cafajeste
Que cínico espera a recompensa

Pela sinceridade com que amei
Sem um só beijo ter de sua boca,
Senão o que em sonho te roubei...

E aqui resignado e de voz rouca
Da traiçoeira Paz, logo, ouvirei
A gargalhada farta, acerba e louca...

( Queiroz Filho )

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Breve Monólogo de Baltazá

Bão! Mo nomi é Baltazá,
Tenhu quinzi anu di fomi
I us memu quinzi di azá.
Moru num lugá sem nomi,
Tumbém, num tem qui nomi dá!
Memu assi cabi eu e mia mãe Maria
I u meu quirido pai Bast'ão;
Ah! Tô mi squicenu dus meu oit'irmão
I di mia irmanzia Sufia
Que tá c'os oto, trabaianu
I cum meu pai, lá num lixão.
Modi qu'eu, todus dia du anu
Vô cum mãe passiá na cidade
Pá modi vê si cunsiguimu ua caridade.
Só qui só vô pa vê a minina bunita.
Qui quando veju, o mo peitu, di filicidade
Abobádo, parpita, qui parpita!
I quandi orçu sua mãe falanu
U nomi pur dimai lindu nessa vida:-Nuelita!
I meu oio vão marejando
Dessa paxão, meu Deuizinho, tão bendita!
Qui já num mi guentu e choru.
Apois, creiu im Deus e a ele oru
Qui um dia hei di cum Nuelita casá!
I haveremu di tê memu ua casa:
A mai bunita, grandi i arta!
Pá modi noi doi ficá.
I pá sempri junto se amá
Qui nem doi santu, num artá...

( Queiroz Filho)

Maísa

Tu que abrandas as mágoas tardias
Deste meu frágil peito emurchecido;
Tu que dás vida, cor, Alma e sentido
À assombrosa nódoa de meus dias;

Tu que me és na vida o bom Messias
De quem anseio o abraço tão querido;
Tu que me surges qual o Amor banido
Pela indolência atroz das frases frias;

Tu que meus olhos ébrios, penitentes,
Replenas de um pranto alegre e vivo,
Bem sabes que estas dores indecentes

Que os ouvidos te gastam sem motivo,
Apenas são expressões inconsequentes
De quem, da tua vontade, está Cativo...

( Queiroz Filho )

Verás

Verás que me amaste, Amor, um dia
Quando em lúbrica Dor estremeceres,
Por já minhas lascivas mãos não teres
Para incendiar-te est'Alma fria.

Que nem sequer, ao menos, balbucia
Qual dantes um gemido, para creres
Que de meu longo afago, os prazeres
O alvo corpúsc'lo teu não carecia.

Mas se te enredas já a outro sujeito,
Enquanto a Outra chamo de Rainha,
É que sei que esse não fará bem feito...

Visto que sua boca mui mesquinha,
Nem mesmo tocará teu ardente peito,
Pois antes lhe dirás que és só minha...

( Queiroz Filho )

Tema Alienado

Em face ao passado me revejo,
E esboço o retrospecto da vida,
Que consequentemente diluída,
Foi-se na impotência do desejo.

E a simples razão a este ensejo
De redargüir a aurora preterida,
Na coesão dos fatos, presumida,
É o meu aniversário que festejo

Sozinho neste quarto duma figa!
Sem uma boca para o meu deleite,
E sem as coxas longas da amiga

Onde bem acolhido eu me deite,
E ela, se despindo, enfim, me diga:
- É este o teu presente, aproveite!...

(Queiroz Filho)

Do Novo Ano Novo

Desejo aos meus celebres amigos
Um ano de dois mil e onze massa!
Deixemos para trás toda a desgraça,
Pois se estreitam já outros perigos...

Mandemos ao Inferno os inimigos
Com cada traidor, deles, comparsa,
Saibamos que Politica e uma farsa
E que os novos algozes são antigos.

Findar-se-á a magoa do ano oposto
Veloz como em um passe de mágica,
E um novo ano novo a contragosto

Vira em meio a turba verborrágica,
Ate que a morte, por destino ou gosto
Venha exorar de nos a vida trágica...

15/01/2011. (Queiroz Filho)

Consciência Primitiva

Estes teus parcos Sonhos alvejados
Por máculas mais negras e malditas
Que a vida dos leprosos condenados
A escalavrar suas carnes tão aflitas

Das dores que em vão inda meditas,
Nada mais são que gozos adornados
Co`as presunçosas cores mais bonitas
Que até por porcos foram invejados!...

Oh! Valioso verme! Não, não exijas
Do Mundo, a atenção mais cobiçosa,
Transcendas à tua Ira tempestiva!

E em teu carrasco a tua dor corrijas,
Só assim verás a alcova assombrosa
Que é a nossa consciência primitiva...

(Queiroz Filho) 17/2/2011 06:11:44

Spiritus Junctus

Que angustiante falta tu me causas,
Não sei mais nesta vida ser sozinho,
Porque sem ti os dias são só pausas
Na espera pela Luz de teu carinho.

E nesta impaciência eu me definho
Nas tétricas visões de almas falsas,
Prostradas como eu no descaminho
Da inércia de que tu não te exalças...

Pois neste calabouço é onde habito,
E nele infaustas horas me extraviam
Esta ânsia de sorver bem do infinito

Os sonhos que de nós tanto sabiam,
E eram em minha vida um ledo rito,
Onde em teus olhos céus se erigiam...

(Queiroz Filho)

Soneto só para Cecília

Neste meu poeminha meia boca,
Sem frases de efeito ou arremate,
Em que o sono ressoa pela boca
E a inspiração molenga se debate.

Não acho o que de fato te retrate,
Ó, minha Cecilinha, bela e louca!...
Que esta solidão não me empate
E nem sequer o sono que apouca

A minha lucidez mais duvidosa,
Pois resistindo a tudo ora te digo
O que há nesta cuca preguiçosa:

- Desejo de comer à sós contigo
Porções dessa batata saborosa,
Ouvindo aquele rockzinho antigo!...

(Queiroz Filho) 19.03.2011

Ao Teu Nome

Poetisa é o que tu és, de corpo inteiro,
Pois o que o teu nome aqui nos diz
Não é o relato simples da aprendiz,
É algo mais completo e lisonjeiro.

Essência de um estro alvissareiro:
- Alma liberta ao Sol da tarde gris...
Alegres-me a vida e dê-me um Bis!
Lançando-me ao sono derradeiro...

Pois tu és a “Padroeira da canção”,
E, eu, não mais que o vago arremedo
Dum tolo ateu que vivi sem paixão...

De Amar a vida sempre tive medo,
Inda me mata a dor de ouvir um não,
Mas só por ti um riso me concedo...

( Queiroz Filho) 20/03/11 03:28 AM

O Nômade e a Mariposa

Por sobre um rochedo montesino
Um nômade sem Paz ali repousa,
Da vida nada espera e nada ousa,
Só quer é esquecer o seu destino.

Pois se sentindo já um assassino,
Por ter aniquilado uma mariposa,
E agora ao vê-la só e sem esposa,
Seu ódio exclamou em desatino:

-Senhor! Matei a Vossa criatura
Que mal nenhum a mim articulou,
Tomai a minha infinda amargura!

Pois minha pobre Alma se negou
De ver esta horrenda Desventura,
E há pouco do rochedo se lançou!...

( Queiroz Filho ) 23/03/2011

Elisa

Se ferido de amor, meu peito, sinto
Por ti Mulher quest`Alma enaltece,
Ó, Deus, quão hei dizê-lo?... Até parece
Que com astuta voz a todos, minto.

E já aos teus pés, prostrado de absinto,
Declaro-te o amor que me endoudece
E a cada passo, assim, inda mais cresce
Sob ânsias e desejos bem faminto!

Ó, vens, doce Elisa, incauta e bela
Atar teus rubros lábios cá aos meus
Que a chama do Amor não esfacela

A alma que se lança louca aos céus,
Pois lá o amor é a mais certa janela
Pra se alcançar a glória de um Deus!...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 22 de março de 2011

Ao Poeta Diego El khouri

Se este artificialismo convincente,
Que chamam de amor, os miseráveis,
Não fosse só a desculpa decadente
De vergonhosos medos deploráveis.

Quiçá inda quisesses ser contente,
Pois libertando instintos insanáveis,
Vertendo em todo corpo impertinente
Luxúrias quase não comensuráveis.

Os teus dias, Soldado, de embates
Com legiões de espectros chauvinistas,
Não mais seriam trágicos combates

Pois inda que furassem tuas vistas
E a tu'Alma cedesse aos desgastes,
Eu te daria a Fé dos bons Sofistas...

( Queiroz Filho ) -21.03.2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Confissões de um Poema Hipocondríaco

Tenho em mim uma terrível doença:
-Não sei me fazer em versos livres!
Sim!... Pasmem, senhores!
Juro pelo cético Itabirano
que não sei me fazer em versos livres!
O que conheço por liberdade em poesia
é o avesso do que outrem poderia me dizer...
Disse:-dizer... e não:-me dizer poderia...
Não façam de minha consciência
um hipérbato acuado!...

É a prisão da métrica que me faz sentir-se
livre!
Livre e iludivelmente poderoso!
Mas de quê e em que, ah!Não sei dizer-lhes.
Perguntem ao Manuel, não a mim!...
Talvez isso se dê devido a trágica verdade
de que este moço
que me olha neste exato momento
com indiferença e sisudez
sabe apenas lapidar-me em poesias para os olhos
e não para o coração.

Pois vejam:
-Tirem-lhe o metro,
(foram-se os braços)
-Tirem-lhe a rima,
(foram-se as pernas)
-Tirem-me dele - O seu amado cativeiro!
E irá se revelar atrás de si
Um homem triste, sem sabor.
Sem esqueleto que o sustente
e fatidicamente desnudo...
A rima, a saborosa rima
lhe serve como o bater de um coração
pausadamente vivo.

Como as outras doenças sociais da vida,
Como os cabrestos mais convencionais,
Ele ainda precisa do meu restrito gozo.
O verso livre é uma cidade sem esquinas,
A capital que se desprende de si própria
como um rio que desemboca para o mundo.
E o meu senhor, carece de um abismo,
apenas um abismo, não de um mundo!
Liberdade em excesso é uma prisão sem grades!
e o meu senhor, apenas roga à si
a minha pragmática paisagem
( meu céu de monótonas nuvens)
onde possa, esporadicamente, jogar-se
ao derradeiro suspiro de um verso
como um beijo no espelho:
- branco,
vago
e sem rimas...

( Queiroz Filho)