Opúsculo de um Vencido

terça-feira, 26 de abril de 2011

Desapego

Se tu, um dia, Nise, te enfadares
De todo o ardor de meus carinhos,
E quereres seguir outros caminhos,
Não incriminarei os meus azares...

É mister que aspires novos ares,
Amor não vivi só de velhos ninhos!...
Carece se ferir em outros espinhos
E o seu culto erigir noutros altares...

Assim, de mim, de ti, eu te liberto,
Tu podes ser feliz quando quiseres!
Há muito desse fim já estava certo....

Não sei se amarei outras mulheres,
Mas ouças a verdade que te oferto:
- Me fartarei do pouco que me deres...

26/04/11.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Eleita

De que vaga Atlantis tu vinheste
Tal como uma sedutora Feiticeira,
Furtar de mim a mágoa derradeira
Despindo-me aqui veste por veste?...

Tua pureza é a mesma de Alceste
Que ao marido se dera por inteira,
Da Morte arrostando a agoureira
E tenebrosa fronte, aonde a peste

A que todo o ser vivo se sujeita,
Sentira do bom filho de Alcmena,
A robustez mais grave e perfeita...

Mas eu que vivo uma vida amena
Tão só posso dizer-te: - És a eleita
De minha inspiração vã e serena...

19-04-11 Queiroz Filho

Momentos

Há momentos em minha vida
em que não quero estar só,
Mas todo o instante em que me olho à fundo
dentro de mim e ao meu redor, estou!
Quisera crer na vida, nos homens e na pureza
dos pequenos.

Mas não sou forte, não existo em mim
para ter ideia do que são os outros por dentro
e nas coisas em que deveria crer.
Como poderia, se eu nem me reconheço?
Se vivo do lado de fora de mim?
Sou rude e vulnerável como a noite...
Nada em minha alma falta ou excede,
Sou eu que sou miúdo demais para ela -
Uma veste interna onde sobram as mangas...
Dentro dela eu sou uma frágil nau, atenta à navegar,
Ou uma lebre a correr aturdidamente
dos vendavais que lhe persegue,
( ao menos isto me resta)
Ela sobra em mim, e eu, constantemente
falto à ela...

Por isso não amo aos outros quão deveria,
Por isso não me amo quão preferiria,
E o que está sempre comigo, algemado à minha angústia
é este silencio morno que me salta às costas!
Que dialoga com os meus sentidos...
Ah, como é maravilhoso e trágico ouvir o silencio!
Ele sim, é uma afável companhia,
Pois se abre e se fecha em nós como uma porta,
(Ou será que nós é quem somos a sua porta?...)
não me murmura conceitos,
não me estabelece regras,
não me rejeita a tristeza
e nem me beija com seus lábios impalpáveis!
( por mais que eu quisesse).
O silencio é a veste negra que recobre o amor
E os amantes – tolos! Não percebem que todo o amor
apenas carece do silencio dos olhos e da verdade que há neles.

Eu, quando amei, fui um tolo,
bradava essa alegria em meio aos pulos pelas ruas ermas
e ninguém, ninguém me ouvia, senão, os ouvidos feridos
do sapientíssimo silencio.
Que severamente, me dizia :
Esqueças os outros, esqueças o mundo!
eu que sou a tua externa consciência,
eu sou, oh! Iludível tolo,
o amor de todos os homens!...


19-04-11

(Queiroz Filho)

domingo, 17 de abril de 2011

Abandono

Ao apartar-me lá de ti, Querida,
Não contive est'Alma de tristeza
Pois deixaste-me só naquela lida,
Erguendo-te altares sem beleza...

Conquanto revivi o hausto da vida
Na fervorosa chama em mim acesa,
Óh, como me doera a atroz partida
Que esta vista ferira com rusteza!...

Mas se chamar-me ouço, voz airosa,
Pasmada, a face minha, se congela!
Crendo ser tua a prece langorosa

Que aqui mo diz: - Óh tolo, tagarela!
Acalmes, que também fora queixosa
Teus afagos clamar, ao peito dela...

( Queiroz Filho)

Sublimação

Quão estes olhos túmidos se vão
Perdidos lá na luz de tempos vagos,
Que ao firmamento giram em unção
Sob o calor, oh! Lívia, dos afagos

De teu amoroso e terno coração,
Que paga-me rancores nunca pagos
E inspira-me ao peito a devoção
Guiada à Jesus por três reis magos.

Pois sob aquela estrela de Belém
Estava o salvador dos Malfadados,
A quem tu'Alma santa, diz:- Amém!

Enquanto a ti eu digo aos bocados:
- Naceste não p'ra ser só um alguém,
Mas para dar a cura aos desgraçados!...

( Queiroz Filho)

À um Operário

O pouco de Política que entendo
Já basta p'ra saber que é só merda!
Quiçá, se mais soubesse, essa lerda
Razão, me estaria enlouquecendo.

E, agora, este soneto escrevendo
Sigo para esquecer de uma perda
Que não é da direita ou esquerda,
Mas desse proletário que sofrendo

Destratos do patrão, vil, ordinário,
Não faz de nenhum lado, distinção,
Só espera lá ansioso e temerário

O Deus que cessará tanta opressão,
Pois vês, Senhor, é dia do Operário
Que te entregou a Alma e o coração!...

( Queiroz Filho)

sábado, 16 de abril de 2011

Aos Moralistas

Nesta mente esdrúxula e exaurida
Aonde habitam todas as desgraças,
Tomada como os livros, pelas traças
E dos sublimes Sonhos, recolhida.

É donde extraio a tola Dor fingida
Bebendo a Razão em negras taças!...
Não cabe nessas lágrimas escassas
E nem em minha Alma emudecida

O brilho ostentador dos altruístas.
A vida me ensinou como os ingratos
Em ver na compulsão de idealistas

A fome de Hedônicas conquistas,
E tal como os rebentos de Pilatos,
Eu escarro no Altar dos moralistas...

( Queiroz Filho) 16-04-11

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Livramento

O teu brando Espírito me invade
E traz-me esse Desejo inquietante
De um Gozo benfazejo e ululante
Do Beijo com sabor de ansiedade!...

E a vida se transmuta na Saudade
De alguém que se amou tanto distante,
E o meu Sonho na Paz exorbitante
Requesta em tua boca a alacridade

Singela, que me cega a cada passo
E nisso Ele se basta e se completa,
Lançando os destroços do cansaço

Nas valas de uma incerteza abjeta,
Pois só em ti eu me salvo desse laço
Que fora em minha vida ser poeta...

( Queiroz Filho)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Irene

Tu que deixas o meu coração mole,
E de incontáveis cravos, perpassado...
Sem ver o quanto tenho suplicado
Para que esta paixão, enfim, se isole

Na mais remota parte inconsciente
Das vias de meu cérebro obscuro.
Desprezas um carinho terno e puro
Deste que inda por ti se vê doente?

Rejeitas meus exaustos galanteios
Enquanto te debochas bem solene,
Quando me contradigo dos receios

De minha adoração sempre perene?
Pois só não lhe cobiço os leves seios,
Mas da cabeça aos pés, desejo Irene!

( Queiroz Filho)

Meus Versos

Estes tais versos vãos e vis e vagos,
Que ao vazio tombam, tristemente,
Nunca hão de clarear uma só mente,
Tampouco inspirar os teus afagos...

Ouça-os, cá atento, pois são gagos
Como a dolosa voz do Amor ausente,
Que ferindo um peito descontente,
Fez aviltar a Dor de seus pressagos...

E destarte, ao desprezo, condenados,
Nesta masmorra cantam a dor ardente
Dos que jamais serão,por fim, amados,

Senão por quem ao peito ora os sente,
E em sua Alma os tem tão confinados,
Que os diz, sem os dizer, a toda gente!...

(Queiroz Filho)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Remorso

Se um dia, o remorso, tu sentisses
Que no meu coração já se propaga,
Por ter-te posto ao peito essa chaga
Que não poria a amada de Ulisses!...

E com o teu silencio me punisses
Nem inda, assim, Denise, será paga
A Dor que te causei, e não se apaga
Ainda que do céu, a sós, ouvisses

A voz de Deus dizendo-te: Ó Filha!
Mostrai ao teu verdugo a outra face,
Beijai com gozo o Lobo da matilha

E esqueçais a injuria desse enlace,
Pois todo o Injusto é uma vaga ilha,
E o sol para o infiel, caindo, nasce!...

( Queiroz Filho) 07-04-11

sábado, 2 de abril de 2011

Exclamação

Sob infindas desoras, vãs e mudas,
Cá, esperto-me, de súbito, já aflito,
Sentindo, à face, a aura do infinito
E aos ombros o pecado de um Judas

Que pari passu às almas vis e rudas,
Tapei o ouvido a quem me teve dito:
- Crede, ó perjuro, sou o Pai bendito
Que vos abranda as dores tão agudas!

Contudo, herege, atro e jocundo,
A alma lançastes ao inferno imundo,
Enquanto, tanto a vós, eu inquiria:

- Ó, apresai-vos, logo, ide, filho meu,
E vos rendais a quem por vós morreu
E, inda, assi, por vós, mais morreria...

(Queiroz Filho)

Paradoxo

Se esta ociosa vida inda perdura
Em perdurar a sina que eu carrego,
Na vista a sepultar a noite escura,
Como um vadio triste, vil e cego

Resignado ao claustro da amargura,
De todo o sonho vão, me desapego,
Pois se nem no amor eu vi ventura,
Que mais há a fazer? A vida entrego!...

Adeus, almos irmãos, adeus, ó, Musa,
Chorai, ó, doce Mãe, o filho vosso,
Que a aurora do pesar se fez intrusa

Ao sonho de amor que era só nosso,
E revelou-me a tal verdade intrusa:
- A Morte é negar o que não posso!...

(Queiroz Filho)

Fatalismo

Quando, amigos, desta vida eu for,
Verão vazio o rastro de meus passos,
E a minha alma cega e tão sem cor
Já não terá o calor dos teus abraços.

Que fadado ao silêncio e ao torpor,
Ninguém afagará meus olhos baços
E nem dirá, enfim, o que é o Amor
Para a agonia desses ermos laços...

À qual Musa darei meu verso findo?
E qual carregarei em meu coração?
E que amigo verei, lá conduzindo

Minha matéria inerte em um caixão?
E que sonhos terei quando sorrindo,
Souber que a vida é Dor, é Ilusão?!...

( Queiroz Filho )

Vita

Tu és formosa Vita, o fausto nume
Onde vates e santos cá se rendem,
Pois para se esparzir, ao céu, perfume,
Do verso de teu riso só dependem.

E quão de tua vista se desprendem
Esplendorosos astros de alto lume,
Raios de luz, o céu, ferindo fendem,
Que mais alvura dá ao vasto cume

Aonde cantam Musas e Amores
Com elevada voz ao Deus-pequeno,
Que lá a esperar-te com mil flores

Na destra traz a ceta e o veneno,
Que pode transformar vis pecadores
No Anjo que tu és, casto e ameno...

(Queiroz Filho)

Mãe

Acolhes-me,ó Mãe, só um instante
E apertes tua mão contra meu seio,
Acaso sentes como eu sou alheio
A tudo neste mundo inconstante?

Meu coração é um lírio flutuante,
Dentro da alma já partida ao meio,
Pois só em teu Amor ainda creio,
E choro a tua Mágoa agonizante...

Como me pesa à vida esta jornada,
De tanto sonho imoto e traiçoeiro,
Mas tu, só tu, oh, santa abençoada!

É que com estes olhos de cordeiro,
Farás deste rebento que foi nada,
Um homem justo, bravo e verdadeiro...

(Queiroz Filho) 19/7/2009

Elisa II

Ames-me hoje, Elisa, que és bela,
Pois o carinho meu não é de moço,
Que quer roê-la qual o cão, o osso,
Dizendo que teu espelho é tagarela

E o que vês fanada em alvoroço
É só de tua vaidade, a flor singela,
Que, logo, ao tolo anseio, se atrela
De ver fugir ao tempo, teu pescoço!...

Pois este mui ingrato e ledo viço,
Há de dizer-te adeus e dar sumiço
Co'a tua auspiciosa exuberância.

Para te convenceres, meiga infanta,
Que a velhice, tão-só, aquele, espanta
Que a vida não goza com ganância!...

(Queiroz Filho)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Palavras Doces

Tu que ofertaste a mim esse mistério,
Que se desbota em Sonhos de agonia,
Não vês na minha Alma o cemitério
Das Crenças que assassino à revelia?...

Não vês que esta onerosa aleivosia
De me embalar em teu beijo etéreo,
Sem que comigo estejas um só dia,
Sempre será um mero despautério?

Quem dera fosse eu, esquizofrênico
E a vil Joana D'arc, a mim, tu fosses!
Ou essa vida fosse um palco cênico

Onde os nossos monólogos e poses
Seriam como o mito mais Helênico:
- Eco e Narciso... Ó vãs palavras doces!...

( Queiroz Filho)