Opúsculo de um Vencido

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Escuridão

Na escuridão profana me arrasto,
Fitando o Céu na rútila distância,
E a sós lamento a acre ignorância
De que meu viço já se sente gasto...

Das trevas, já exalo o odor nefasto...
Ó, pútridas misérias da arrogância!
Dizei-me de que é feita a substância
Que fez gerar o Deus altivo e casto?...

Quisera ter no âmago a Esperança
Dos seus filhos mais retos cuja Fé
Eleva-se lá ao Céu e imensa avança

Desde as longínquas proles de Noé,
Mas logo alguma dúvida me alcança -
Onde que Deus está?... Quem Ele é?...


( Queiroz Filho )

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Homens e Cargas

Pensar que ao coração tu me sentias,
Quão os meus leves lábios osculavas
E os meus mimosos seios desejavas,
Tornou-me a ilusão de infaustos dias...

Sempre a dar-te o que não merecias,
Ignorando o odor de outras escravas,
Calando em mim a dor de mil aljavas!
Eu fui Mulher das negras profecias...

E se inda esta moléstia me tortura
Com lágrimas incrédulas e amargas,
É que não há em mim a tal bravura

De homens como tu de fuças largas,
Que andam a devastar tant'Alma pura
E inda assim tratá-las como cargas!...

(Laura Alves Coimbra)