Opúsculo de um Vencido

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mau Cheiro

O papel higiênico
Com que limpo a bunda,
Nessa manhã manca
de uma triste segunda,
Está me dizendo
que aumentou seu preço
E que seria bom economizá-lo,
Talvez substituí-lo
Por um jornal de merda
ou uma revista
que já cheire mau...
Mas eu lhe digo,
Meu amigo!
Redundâncias,
não se dão comigo!...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desgosto

Tão bela arrumei-me hoje pra ti
Que a euforia em mim fazia festa!
Vesti-me com o Azul de tua testa,
Maravilhoso azul que hoje sorri

Aos lábios meus abertos só pra ti,
Mas sinto que alegria me detesta!
E a esperança é a carne indigesta
Que ao molho de meu ódio, engoli!...

Agora a solidão é o meu abrigo,
Mas não verás minha lágrima cair,
Pois beijarei até o teu inimigo!

No tresloucado impulso de rugir
Mais alto que a mágoa, que o castigo!
De amar a quem de mim vivi a fugir.

( Laura Alves Coimbra)

Tempo

Relógio ou calendário - não importa!
Se a própria vida é lança e armadura...
E o Tempo é tão-somente a mera porta
Entre o útero materno e a sepultura!

Os Anos só nos servem de atadura
À mágoa que a memória não suporta!
O ódio é uma moléstia que se cura
Nas orações de uma crença morta...

A lágrima que cai sobre o teu rosto
Às rotações do mundo é indiferente!
O amor que te deixou e hoje é desgosto

É o mesmo que não sai da tua mente,
Perder é envaidecer-se a contragosto,
Pois ser sozinho é a dor de toda gente...

( Queiroz Filho )

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Sim!

Nessa poltrona escura, cá isolado,
As vãs lembranças tornam-se tormentos...
Gozei na juventude bons momentos!
Mas hoje a velhice anda a meu lado.

Deslizo-me nas brisas dum charuto
E guerreando vou co’ as memórias
Duma mulher que hoje é o meu luto!
E a causa dessas fugas provisórias...

E assim nos rituais sempre vulgares,
O atormentado velho que há em mim!
Vai resmungando à vida, seus azares,

Somando os trinta e dois que vivo, enfim?...
Aos seus trinta e dois nãos soltos nos ares!...
- Será que para o Amor existe o sim?...

(Queiroz Filho)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Espelho

O teu semblante triste me revê-la
Que os sonhos te deixaram para trás,
Cansados de viverem pra teus ais,
Teu hausto desbotaram na aquarela

Dos teus mais descabidos ideais,
Sonhavas ser um dia a Cinderela,
Mas viste que o espelho não é a tela
Mais adequada aos traços joviais

De tua frágil mão tão pequenina,
Morreste com teus sonhos de menina!
E agora até o silêncio te espezinha

Ao vê-la ai chorosa rente ao espelho,
Culpando um coração inda fedelho,
Que na Arte do amor só engatinha...

( Laura Alves Coimbra )

domingo, 9 de dezembro de 2012

Ode em soneto À cidade do Recife

Minha Deusa, jamais vista, jamais
Pisada, jamais amada; em meu não-amor,
Te amo! Em meu não-amor, quase impostor!
Além do que é Amor, te amo mais!...

És minha mais inconsequente calma!
Em mim não existes, porque já existes!...
E aqui és mais real que os sonhos tristes
Que habitam esse porão chamado alma.

Agora já nem sei se eu quero ver-te,
Talvez melhor existas como um flerte,
E é como eu te preciso, meu Talvez!...

E quando a vida, enfim, me der licença,
Comigo enterrarão a altiva crença:
Que para o Amor, a Morte é sensatez!...

( Queiroz Filho )

Velho Tema

Na curva do caminho,
uma aluno e uma crase se olharam,
acidentalmente.
A reação foi espontânea e mútua:

ÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀ!...

Q. F.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

2º Poema da Necessidade

É preciso salvar José,
É preciso suportar Michel,
É preciso odiar Fernando,
É preciso acordar nós todos.

É preciso sair do país
É preciso criar um Deus,
É preciso omitir as dívidas,
É preciso comprar um PC,
É preciso esquecer a Baiana.

É preciso estudar física Quântica,
É preciso fingir-se sempre bêbado,
É preciso ler Drummond,
É preciso vencer as dores
Que, nos causaram, certos autores.


É preciso crer em lobisomens,
É preciso, sim, reinventá-los,
É preciso colher flores pálidas
E anunciar o INÍCIO DO MUNDO.

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

II Hino Bocional

De quatro eternamente ao Blush esplendido,
Ao som do tal Michel sempre profundo,
Torturas-te, ó Brasil, Michê da América!
Visado pelos Trolls do Novo Mundo!

Mais que a Terra tens guarida...
Teus tristonhos pastos santos tinham flores,
“Tuas praias tinham vida,
Nossa vida hoje é esterco aos teus favores.”

Ó pátria assada,
Confinada,
Corre! Corre!

Brasil teu Mal eterno seja símbolo
Ao gringo que o teu sonho viu frustrado
E diga o verde-esterco dessa flâmula:
“Roubar sem avisar é muito errado!”

Mas se ergues sem lembrança a tua sorte,
Verás que um Collor teu não foge à luta,
Cagando e andando a quem visou sua morte!

Terra encalhada,
Entre outras mil,
Tens mais xibiu,
Ó, Pátria atada!

Dos filhos deste rolo, és Mãe sem brio,
Pátria atada,
Brasil!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Plantão Lexical

Extra! Extra! Bombástica manchete:
- Brasil declara Guerra à Pasárgada!
Lirismo sitiado!... Rimas em greve!
E o Rei Pasargadense sequestrado...

O caos tomando conta das cidades;
Línguas incendiadas se amortalham
Jogando-se dos Lusos edifícios...
Deixando os testamentos lexicais

Ao próximo imbecil que sem juízo,
Venha lhes dar o mesmo triste ofício
De ser menos prazer que sacrifício

Ou estúpida rima chata e acidental...
Encerra-se aqui o nosso plantão,
Já, Já! Voltamos; queira, Deus, que...

( Queiroz Filho )

sábado, 1 de dezembro de 2012

Rotina

Ralar dia após dia... Acordar cedo;
Amar e educar todos os seus filhos;
Recomeçar no amor sob outros trilhos;
Viver pra se valer do próprio medo;

Domar e enfrentar suas fraquezas;
Reconhecer o insulto às sardinhas,
Em latas espremidas, pobrezinhas!...
Não convidar pra cama, as tristezas...

Se queixar que o Domingo foi ligeiro...
Chorar com a Saudade desse cheiro,
Talvez do teu pescoço ou dos cabelos...

Olhar para o Passado, indiferente...
Sorrir para os tropeços do Presente;
Fingir que um dia iremos esquecê-los...

(Queiroz Filho)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Versos quase Íntimos

Adoro esconder-me em teus cantinhos!...
Dos mais comuns àqueles mais trigueiros,
Distingo-os pelas formas, pelos cheiros!
E a todos Amo e rendo meus carinhos...

São sempre meus mimados queridinhos,
Nós somos uns dos outros, prisioneiros,
Parecem, quando acordam, cem isqueiros,
Ardendo entre as matas e os caminhos...

Nas noites de intragável isolamento,
Eu choro, grito, uivo, ó, Deus, eu tremo!
E aturo um Coração bem rabugento,

Que viu nesse calor, quase supremo!
A verdadeira entrega e o sentimento
Alçarem-se ao Dom do gozo extremo!

(Queiroz Filho)

Amor!

O Amor que já foi arte, hoje é suborno,
Que aos desvalidos deu seu veredito:
- Se não cresceres rico, ou então, bonito,
Tu não terás de mim nenhum retorno.

Aceites do sarcasmo, o vil adorno,
Ou peças para Deus um plebiscito!...
Pensando bem, não trames tal delito;
Fervas teu coração dentro dum forno!...

O fato é que o prazer de friccionar
As sensitivas partes de uma Greta,
(Eu sei que morrerei, mas vou falar!)

Não digam que sou filho do Capeta,
Meu Amor, é o ingênuo ato de gozar
Batendo uma punheta em tua buceta!...

(Queiroz Filho)

Decadentismo...

Após o gozo, a culpa pela ausência
Do nobre e imprescindível sentimento!...
Mas logo a moleza e o esquecimento,
Retomam, do egoísmo, a sapiência...

Qualquer Idealismo é decadência;
Um estúpido clichê, nada moderno!...
Spleen ou Carpe Diem? Nada é eterno!
A vida em si é a própria aparência...

Se a Puta ao escapar dum bacanal
E após chegar em casa, ali se deita
Com o seu suposto macho oficial.

Exausta, sua greta, então, rejeita,
Ou goza, mas de forma maquinal,
É que no amor só isso se aproveita...

(Queiroz Filho)

Soneto Letrado

O ”A” é a vogal mais indecente!
Aonde já se viu!.... Uma menina
De saia, com a bunda para frente?!
Será que comprou bala na cantina

Mas a deixou cair, lá de repente?
Enfim, vamos ao “E”que me alucina,
Por ser mais que as outras, diferente:
Tripé que vivi em pé, é a sua sina!

Qual o cara dessa época antiga,
Que tonto, tem de ornato o mundo todo!...
Aonde eu parei? Ó “IIII!”, Me diga!...

Serás o pé do “E”, que ao “F” podo?...
Enquanto o “O” é a boca com fadiga,
E o “U” é só um buraco sem engodo!...

(Queiroz Filho)

A ferida

Contigo, meu qualquer, não mais me melo,
Cansei de confeitar as esperanças!...
Não temos, nem tivemos, nunca um elo!...
Os versos que pari são as crianças

Que eu gerei no ócio do duelo
De nossos egos cheios de vinganças!
Autênticos qual um lindo céu amarelo,
Aberto ao sol das vãs desconfianças!...

Tu me deixaste só nesse inverno,
Mais drástico que a honrosa falsidade
Que rege o teu caráter subalterno.

Sendo que eu te pedi só a lealdade
A simples lealdade ao amor fraterno,
Que lembra hoje de ti por caridade.

( Laura Alves Coimbra )

Profissionalismo

A minha incasta alma de isopor,
Caiu sobre os teus pés, exata e nua,
Tocou os seios seus com igual ardor
Ao da puta que ao cliente se insinua!...

Não estranhes a ousadia, meu amor,
Pois eu e a minha alma, somos tua!
Mesmo que não nos queira, é um favor,
Que pago à tua vadia Deusa Lua!...

Se quiseres, eu interpreto a Cadela,
A quem em tortas noites de exagero,
Dizias: - Mais que todas, tu és bela!...

Abrir-te as pernas, já, é o que quero,
Mas se outro abraçar minha bagatela,
Após meu expediente eu te tempero!...

( Laura Alves Coimbra )

domingo, 25 de novembro de 2012

Suplica Suprema

Nas maléficas horas, que parido
Em Natalícia aurora, assim, o vi,
Bradara à Juno, Jove enfurecido,
Ao vê-lo, ao topo, achegar-se ali:

- Recolheis, ó, tola, tal injúria, a si,
Pois ultrajastes vosso bom marido
De quem Saturno, já se gaba e ri,
Sob sua mortal forma, envelhecido.

O que ora quereis como castigo?
Meu onipoptente raio fuzilante,
Ou o Cáucaso de trono e abrigo?...

Não vede que o ser, de vós, diante,
É deste Soberano, o eterno imigo,
Que do vosso amor me porá distante?...

( Queiroz Filho )

sábado, 24 de novembro de 2012

Senhora

Se amor, Senhora, tanto me ordena
Que seja posto em vós, o meu cuidado,
Debalde é pelejar com minha Pena,
Pois deste mal, ao bem, vivo curvado.

Nas perfeições que só Eros encena
Aos olhos que por ele, são flechados,
Vede quão tolo exemplo fora Helena,
De quem Teseu furtando agrados.

Quando de Razão, bem desprovido,
Viu a bailar com graça aquela Musa,
Que à paixão seu peito viu rendido

Mais que a nefasta vista de Medusa,
Sem ver que esse amor tão desmedido
Traria à Ilión a atroz desgraça inclusa...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

À Predileta

...E dissipou-se em nós toda a magia,
Nascida dum instante assombroso,
Em que o meu gozo uni ao teu gozo
Em um misto de ardor e nostalgia.

Uma sublime Voz nos conduzia
A um Império todo altivo e poderoso,
Maior que todo o espaço nebuloso;
Mais Belo que a Luz que gera o dia...

Por isso em minha lucidez malsã,
Dos seios teus, eu fiz o meu divã,
Pois foste minha Musa predileta.

Em místicas ternuras transcendentes,
Queimando corações, almas e mentes,
Queimando, meu amor, o teu poeta!...

( Queiroz Filho )

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Megalomaníaca

Sou Megalomaníaca em sentir
A vida em seus mais íntimos recantos...
Teimosa em reviver, em repetir,
Os velhos versos vãos, os desencantos...

O Tempo fez em mim sua arruaça,
Pois ele não distingo e não retalho,
Futuro - Hoje em mim, ligeiro, passa...
Preguiça - És meu digno trabalho!...

O tempo encolheu as minhas vestes;
Queimou minhas lembranças da infância,
E inverteu meus Nortes e meus Lestes...

Neurastenia é Paz sem elegância,
Oh! Meu amor, o anel que tu me deste,
Morreu com a memória de criança!...

( Laura Alves Coimbra )

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SE EU RECEBESSE AMANHÃ

Se eu recebesse amanhã, pagaria ao menos
O que há tempos devo a minha triste irmã;
Minha mãe de espanto morreria
Se eu recebesse amanhã!

Quanta dívida pressinto em meu futuro!
Sem dinheiro pra sair, nem amanhã!
Acharia mais amigos, mais amores
Se eu recebesse amanhã!

E um sol e um céu azul e até uma praia!
Na longa tarde bela no farol de Itapuã!
Não me chegaria tanta cobrança à porta
Se eu recebesse amanhã!

Mas essa mesquinhez que me devora
A ânsia de chuchar e faz da noite uma vilã...
Motivo teria para ir até a esquina, ao menos,
Se eu recebesse amanhã!

( Queiroz Filho )

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Coração

Ó, coração! O que te irrita, dizes?...
Não mais aceitarei tais cerimônias!
Confessa-te e seremos mais felizes
Pois juntos enterramos as insônias.

Que tanto nos fizeram passionais
Ao julgo do amor e da esperança...
Às vezes, és pior que uma criança
Birrenta, a dizer - Não quero mais!

A minha calma ainda não é Santa,
Entendas de uma vez, menino chato!
Sou eu quem te escuta e te canta,

Por isso me ouças - Chega de recato!...
Tu does em mim, amigo, e a dor é tanta,
Que esqueço que és eu e até me bato!...

( Laura Alves Coimbra )

Das Aparências

Toda a deficiência trás consigo
A velha ignorância, o preconceito,
Que faz o portador crer no castigo
De ser só a escória sem proveito

Ao Mundo, que altera o perfeito
Por meio do Arianismo excludente.
Ser bom é pouco, seja excelente!
Não erre, não rasure, tenha jeito!

Perucas, silicones, cirurgias,
Que importam se a vida é postiça?
Viver é se jogar nas mordomias.

E ter mais do que pede a cobiça!...
No Século das vis Hipocrisias,
Teu bolso te dirá o que é justiça!...

( Queiroz Filho )

O Vadio e a Lua

Ei-la surgida em tal noite matreira,
Já estampada ao Céu em alto ponto,
Singrando as horas, a Lua fagueira,
Consola as dores dum vadio tonto.

Que vomitando sonhos na algibeira,
Ébrio soluça em cada canto um conto;
Cantando a vida sem eira nem beira,
Peitando a razão em reles confronto.

Enlaça as suas tripas vis, malsãs
Na bela face dessa ingrata Amante,
Pra que lhe não fuja nas vitais manhãs

Em que o silêncio rasga-lhe o semblante,
Mas louco não vê que as paixões são vãs
E qualquer amor dura um breve instante...

(Queiroz Filho)

Das Conveniências

Amei-te no intervalo de um gozo;
Nas gulas desse meu tesão distinto
E dei-te o meu suor mais precioso,
Inflado pelas mágicas do instinto...

Eu partilhei contigo o vinho tinto
Que deixo para o instante doloroso
Onde te provarei que eu não minto
Ao desejar teu corpo criminoso.

Portanto, meu amor, nada te devo!
Romance é uma bobagem passageira,
Casório é loucura... Não me atrevo!

A mais fiel será logo a primeira
Que se abraçará a algum bom trevo
Temendo que a taxem de rameira!...

(Queiroz Filho)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Meus Semelhantes

Os feios quando andam pela rua
Evitam mais que tudo a indiscrição:
Abaixam a cabeça em submissão
Ao Belo que desfila e que flutua

Como se seu destino fosse a Lua
Ou ostentasse um Sol no coração!...
Enquanto em sua amarga solidão
A ouvir a gargalhada sempre crua

De seu superior, de seu bom chefe!
Que lhe cravou na testa um belo Efe...
Resiste, cala e aceita o seu Castigo.

Sua moral não quer mais uma sova,
Além do mais o fim é sempre a cova
E lá não existe espelho, bom amigo...

(Queiroz Filho)

Prometo

Prometo que não falarei de nós,
Agora e nunca mais; nem do amor!
Mas faço-te um apelo, por favor,
Não ouses desatar os nossos nós...

Dissimulando os contras e os prós
Com essa razão manca e sem valor!
Que faz dum Barrabás, um Salvador...
Encerro o tal apelo e a minha voz

Nas linhas desse cármico Soneto,
Tão nova, ó meu Deus e já tão louca!
Não caces coerência, não prometo!...

Adeus amor, a vida é-me pouca!...
Ofélia está boiando em meu peito...
As lágrimas recaem, a voz é rouca!...

( Laura Alves Coimbra )

Retrato

O Liliputiano Poetastro!
O procrastinador por profissão;
O espedaçado vaso de alabastro;
O triste filho calvo de Sansão;

O rato que ideava ser um astro;
O preguiçoso Hefesto sem brasão;
O caluniador Filosofastro;
O mago sem varinha de condão;

O bailarino cego, cheio e coxo;
O Clown adoecido de cansaço;
O seco e apodrecido lírio roxo;

Eis-me ai pintado em rude traço,
Agora vou dormir meu sono chocho,
Adeus, té amanhã, aquele abraço!

( Queiroz Filho )

sábado, 10 de novembro de 2012

Carpe Noctem

Depois de tantas lutas, tantas quedas!
Mais corajoso ao mundo tu te mostras,
Não perdes teu orgulho, nem te prostras
Ante as imundas cifras das moedas...

Teus pesadelos tortos, viscerais!
Teu chope com espuma de arsênico;
Teu Gênio de Profeta esquizofrênico;
Conduzem-te aos Édens infernais.

Lá aonde a tua Alma te vomita
A cada aparição Mefistofélica
De tua inspiração sempre maldita!

Surgida sob a forma Cadavérica
Dum anjo que ao teu ouvido, uiva, dita!
As dores dessa consciência histérica...

(Queiroz Filho)


P.S: Para Diego El Khouri

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Te perdoo

Eu te perdoo, amor, pelo teu crime,
Pelo desprezo, pelo insulto, pela dor!
O ódio que eu matei, já te redime
Desse remorso inútil e enganador...

Não sejas de si próprio o traidor...
Se em teu leito a solidão te oprime,
É que viveste uma vida sem amor!...
O êxtase é o vinho mais sublime,

Decerto, meu amor, mas ele ilude
Quem dele a vida toda se embriaga,
Pois tira o que te deu: – A juventude!

E essa dor em nós jamais se apaga,
E se te dar adeus, nem isso eu pude,
É que inda tua presença me esmaga!...

( Laura Alves Coimbra )

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Negação

Tu que amas a Beleza sem saber
Sequer aonde nasce sua harmonia,
Se é belo aquilo que te dá Prazer
Ou aquilo que nos dita a maioria.

Quiçá seja por simples covardia
Que aceitarás calado até morrer,
Essa autopunição que te crucia
Na austera solidão do alvorecer...

Beleza não é Dom, nem vocação!
Nem arte, nem caráter, nem conceito,
Ciência, Sapiência ou Perfeição;

É a inconsciente busca do sujeito
Que idolatrando a própria Negação,
Avista até em Deus algum defeito...

( Queiroz Filho )

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lista

Tufões, tornados, trevas, precipícios;
Enchentes, secas, chuvas, tempestades!
Assassinatos, sonhos, Guerras, grades;
Demônios, Anjos, pestes, genocídios;

Angústias, medos, mortes, suicídios;
Profetas, Papas, Chefes, Santidades;
Milênios, Anos, Séculos, Saudades...
Batalhas, Lutas, Lutos, Sacrifícios;

Paixões, Desejos, Gozos, traições;
Amores, Filhos, Netos, Casa, risos;
Doenças, Mágoas, Fé, Superações...

Viagens, descobertas, compromissos;
Descanso, Sono, Adeus, Aceitações:
- A Vida é planejar seus improvisos...

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

À Espera

Na intermitente treva Diabólica
Um Anjo Apocalíptico me espera,
Seus olhos de enraivecida fera,
Ocultam sua farta força Eólica.

Que deixará a Terra apoplética
Ao derramar seu ódio Infernal
Na forma de um bruto vendaval,
Expondo a carcaça esquelética

Dessa amaldiçoada Raça humana...
Que na ânsia de calar sua sede insana
Fará das próprias vísceras seu odre!...

E nesse Holocausto tenebroso,
Deus me dirá de seu trono formoso:
- Agora bebas tu, teu sangue podre!...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Após ler Diego El khouri

Demônios feladores dançam ébrios
Sobre as sangrentas costas do Senhor,
Enquanto um Rufião - Seu cozinheiro!
Vai temperando as carnes judiadas

No Karma das memórias fuziladas...
Cantando: - we are the champions, trouxas!...
De Príapo, o caralho quilométrico,
Assiste-se enroscar-se sobre Eva,

Que o século das Lilithis, anuncia!...
Oh! Buceta-portal, Anatematize-nos!
Lavando-nos com esse gozo ácido!

Pois há tanto já estamos costumados...
Se Deus existe é um Anjo Kaiowá
Que se matou por nojo aos seus filhos!...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Anúncio!

Procura-se uma alma entrevada
De apenas quatro séculos de vida,
Por um nefasto ente, desprezada,
E por seus próprios sonhos, iludida!

Foi vista numa noite ensolarada
Furtando oito réis duma mendiga,
Bem próxima ao beco da almofada,
Regendo dos defuntos, a cantiga...

Com olhos cor de vinho estragado
E uns cílios de Cocote reencarnada;
O seio esquerdo de anjo maculado

E o oposto de Esfinge assexuada;
Devolução não quero, mas cuidado!
Acha que Bonaparte é carne assada!...

( Laura Alves Coimbra )

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Dona Saudade

Dona Saudade hoje está confusa,
Feriu-se com alguma estranha seta,
Dona Saudade, minha amiga intrusa!
Que exala ares de um triste poeta,
Diz que nem o amor hoje lhe bajula,
Nem a dama triste do viril caixeiro,
Pois sem esperança, sua fé se anula,
De rever o amor, dantes verdadeiro,
Dona Saudade, sei que estás amando!
Digas para mim, quem é o felizardo?
Dona Saudade, já se foi chorando...
Sem sequer notar meu sorriso pardo.
Por não revelar-te um velho segredo:
Que és o meu amor e o meu degredo!...

( Laura Alves Coimbra )

Sono...

Eu trago os olhos turvos de sentir
A vida em seus íntimos recantos...
Doei-me a tantos sonhos, tantos!
Que hoje já nem sei os distinguir...

Meu coração, nem ele quis ouvir
O réquiem tedioso dos quebrantos,
Regido por demônios e outros santos!...
Que me apontaram a hora de partir.

Num sono divinal, contemplativo!
Em que não se difere um ser vivo
Daqueles que já foram iniciados...

Aonde nem o Tempo em si existe,
E o próprio pensamente ali se assiste,
Crendo que nunca fomos acordados...

( Laura Alves Coimbra )

Coerência

O triste e preguiçoso descontente;
O amante e a sua musa mais presente;
O bardo com seu estilo decadente;
O erro e o seu tropeço deprimente;

A rima enfadonha sempre em ente;
O verso que encalhou na sua mente;
A moça que passou mais sorridente;
A estúpida alma estrábica da gente;

O gozo de quem ama diferente;
A inspiração tardia e displicente;
Saudade incontrolável do Presente;

Vadia! Me expulsou da sua mente!...
Quem diz que um Presidente é Prudente?...
Suspeito - A coerência está ausente...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Filosofia Barata

A vida é uma ampulheta do desejo,
E seus suaves grãos caem conforme
O grau que se deseja: - Se enorme,
Tu alcançarás o louro mais sobejo!

Mas se acaso, o medo por ensejo
De tua atroz fraqueza já disforme,
Romper-te essa bravura uniforme,
Apegue-se na fé que hoje cortejo:

Gozes à exaustão, faças teu mundo!
Tenhas por profissão, ser vagabundo,
Dinheiro emprestado, só o do irmão!

Case com uma idosa endinheirada,
Saudades – sempre as deixe pela estrada,
Substitua o Amém por um Perdão...

( Queiroz Filho )

Almas Abertas

Só a tua boca esbelta me seduz,
E o teu olhar de moço reservado
É o que hoje na vida me conduz
Ao meu conto de fadas censurado...

Excelso espelho vivo das paixões!
Que cá distante ainda me fustiga
Por trás de mil delírios e canções
Recrias-me a vontade mais antiga

De penetrar na luz de teu segredo
Pra entender, amor, porque tens medo
Do amor de quem, a vida, te oferta?

Amar, amor, não é só estar ao lado...
Saudade não é dor para um mimado
Que de carinhos teve a alma aberta!...

( Laura Alves Coimbra )

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Assombro

Nas minhas solitárias madrugadas
Um espectro maligno me assombra,
Tapando-me a boca com a alfombra
De minhas ilusões tão desgraçadas...

E eis que vago por encruzilhadas,
Fugindo dessa abominável sombra!
Crendo ser esse transe, essa lombra,
A súplica das Almas confinadas

No asqueroso fosso do Inferno,
Sonhando reaver no mundo externo
A envaidecida Dor dos infelizes...

Mas súbito uma voz rude de trovão,
Murmura-me a gemer na escuridão:
Não existem corações sem cicatrizes!...

( Queiroz Filho )

Pesar

No turbilhão da vida merencória
Trouxeste na euforia decrescente,
A mais particular e íntima estória
De abdicados sonhos, fatalmente,

Lançados no abismo da memória:
Paixões assassinadas lentamente
Pela vaidade esdrúxula e ilusória
De reviver o velho amor ausente.

Entrelaçando vidas tão opostas
Num círculo de mágoas e rancores,
Até que tombem todas as apostas

E, enfim, na solidão e sem amores,
Vejas que até o amor te deu as costas
E agora só o pesar rega tuas flores...

( Queiroz Fiho )

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Má Lição

O acento vai aqui, esse é o primeiro!
O outro que já foi, ponho outra vez!
Tu deves colocá-lo aqui no dez...
Metrificando-o, enfim, já por inteiro.

Soneto, meu amigo e companheiro!
Te sinto com fervor e embriagues!
Meu muro sem cimento, és talvez
Mais frouxo que buceta de puteiro!

Eu rogo-te mais essa inspiração!
Cimento, areia e água, mande logo!
Os onze versos teus já aqui se vão!

Não sou poeta bom, nem ouço Bach!
O que mais eu coloco? Hebe morreu!...
Oh! Errei toda a lição, deixa pra lá!...

( Queiroz Filho )

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A minha própria Imagem

É só o teu olhar que me anistia
De todas as misérias do passado,
Por isso me fizeste condenado
A te querer bem mais a cada dia.

À noite minha alma se angustia
Da falta que me vejo malogrado,
Se agora estivesses ao meu lado,
Tal alegria em mim não caberia!

Recrio o teu sorriso na memória
E em mim te faço Sol e paisagem
P'ra juntos irmos nessa trajetória

Furtarmos do Amor, outra passagem,
Pois tu és meu céu, encanto, luz e glória,
Tu és, eu sei, a minha própria imagem!...

(Queiroz Filho)

terça-feira, 10 de julho de 2012

“Odara”

Em uma incauta noite de Natal,
Um velho atordoado se depara
Com aquela saudade - a mais cara!
O lenço que restou do funeral

Dum desmedido Amor celestial
Que fez seu mundo ai ficar “Odara”!
Até o dia em que Ela se chocara
Com uma ambulância de hospital.

Fatídica ironia! – o velho pensa.
Calando em si a antiga dor intensa,
Pois retraindo as lágrimas resiste

E geme em silêncio a sua mazela
Pois no atropelamento ao lado dela
No lenço ia escrito: O amor existe!...

(Queiroz Filho)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O teu Sorriso

O teu sorriso, Mãe, o teu sorriso!
É minha inebriante e farta aurora,
É tudo o que na vida mais preciso,
Por isso não o leve nunca embora!...

Não me faças da vida, o indeciso,
Ou um louco a gemer a toda hora!
Não vês o quanto à noite me devora
A solidão que em versos agonizo?

Perdoes, se aturdido eu exagero
Em te contar meu íntimo segredo,
Mas essa vã saudade não venero

Sequer, agasalhar-me ao duro medo
De que não seja sonho, oh não quero
Deixá-la já partir... Está tão cedo!...

(Queiroz Filho)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Conselho

A Musa dos teus versos é sortuda
Por ter o teu Amor inda à distancia,
Gozando dessa autentica elegância,
Nublada pela mágoa mais aguda...

Decerto não é velha ou barriguda...
Perdoe-me, oh! Poeta a petulância,
Pois íntimos não fomos nem na infância,
Mas te sugiro um galho de arruda

Ou o velho e bom pezinho de coelho,
Que afasta encosto, inveja e timidez!...
E até Poetastro Sádico ou fedelho

Que ama o nu e cru bom Português!
Então, meu histrião, eu te aconselho:
Queres meu ódio? Digas de uma vez?!...

quinta-feira, 29 de março de 2012

Acerto de Contas

Noite velada em sonhos de agonia...
Angustia de angustias a oprimi-lo,
Estraçalhando o Espírito tranquilo
Dum mísero Coveiro ante a afasia

Ao ver que a casta cor se extinguia
Do rosto de seu filho – Bom pupilo
E herdeiro desse ofício sem estilo
Que a raça humana tanto repudia!

Mas inda sob lágrimas sem brilho
E sem esp’rar que nada o conforte,
Abarca entre os braços seus, o filho,

E detestando tudo e a própria sorte,
Vai resolver na ponta de um gatilho
As contas com a velha amiga morte...

(Queiroz Filho)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Aleivosia

Padeço nesses dias co’a suspeita
Que o nosso vão delírio teve fim...
Se muito não te peço, ores por mim!
Ores por nossa estória imperfeita...

Tu que me foste um dia a Eleita...
Oh! Rosa imperial de meu jardim!
Levaste o meu sorriso de Arlequim
E a lágrima ruiu fria e desfeita

Ao fosso sepulcral da indiferença,
Mas eis que o meu olhar te anistia
De alguma já caquética sentença.

Pois sei que esta ingênua aleivosia...
- Já basta coração! Só me convença:
- Alguém há de amar-me algum dia!...

(Queiroz Filho)

domingo, 4 de março de 2012

Natal

Natal é a espúria época indigesta
Da hipócrita canção - Noite feliz!...
Famílias se abraçando em seus covis
Com gritos de amor e muita festa.

À meia-noite o ar todo se infesta
Da luz de mil rojões em cores gris,
É a hora em que o amor cínico se atesta
Ao Príncipe dos Céus, néscio Juiz!

E enquanto os redentores midiáticos
Derrubam em meu colo, a avalanche
De preços e anúncios que são mágicos!

Ordenam, sem pudor, que eu esbanje...
Não quero ser um desses ateus trágicos,
Mas sei que até o Diabo se constrange!...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Os Dias

Os dias já se arrastam enfadonhos
Enquanto esta Alma louca canta e ri,
Por quê? - Já nem eu sei; talvez aos sonhos;
Talvez ao nosso Amor; talvez pra ti!

Talvez seja aos teus olhos medonhos,
Que inquietos como um bruto Javali,
Fizeram os meus dias mais tristonhos...
Esqueças... Mil perdões, já aprendi!...

Ó, Ao menos por tributo ao Passado
E ao Verbo que em tua boca é pecado
Concedes-me um beijo e nada mais?!

Não vês?... Sou tua Bela Adormecida!
E um beijo teu é a Oração da vida
Aos meus dias de Amor, Ternura e Paz!...

(Laura Alves Coimbra)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Tua Culpa

Ó,vadio Sonhador das madrugadas!
Ó, errante trovador dos dissabores,
Vilão das minhas vãs horas aladas,
O que fizeste tu com teus amores?...

Despetalaste as suas frágeis flores
Lançando-as ao léu já desprezadas?
E agora geme estulto as cruas dores
Que em tua culpa foram reveladas...

Tu nem disseste a Eles o teu nome,
Mas eu bem te conheço, és meu irmão!
E sinto esta angústia que o consome...

Quiçá Deus te conceda tal perdão,
Pois condenado foste à eterna fome...
- A culpa não foi tua, Coração!...

(Laura Alves Coimbra)