Opúsculo de um Vencido

quinta-feira, 29 de março de 2012

Acerto de Contas

Noite velada em sonhos de agonia...
Angustia de angustias a oprimi-lo,
Estraçalhando o Espírito tranquilo
Dum mísero Coveiro ante a afasia

Ao ver que a casta cor se extinguia
Do rosto de seu filho – Bom pupilo
E herdeiro desse ofício sem estilo
Que a raça humana tanto repudia!

Mas inda sob lágrimas sem brilho
E sem esp’rar que nada o conforte,
Abarca entre os braços seus, o filho,

E detestando tudo e a própria sorte,
Vai resolver na ponta de um gatilho
As contas com a velha amiga morte...

(Queiroz Filho)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Aleivosia

Padeço nesses dias co’a suspeita
Que o nosso vão delírio teve fim...
Se muito não te peço, ores por mim!
Ores por nossa estória imperfeita...

Tu que me foste um dia a Eleita...
Oh! Rosa imperial de meu jardim!
Levaste o meu sorriso de Arlequim
E a lágrima ruiu fria e desfeita

Ao fosso sepulcral da indiferença,
Mas eis que o meu olhar te anistia
De alguma já caquética sentença.

Pois sei que esta ingênua aleivosia...
- Já basta coração! Só me convença:
- Alguém há de amar-me algum dia!...

(Queiroz Filho)

domingo, 4 de março de 2012

Natal

Natal é a espúria época indigesta
Da hipócrita canção - Noite feliz!...
Famílias se abraçando em seus covis
Com gritos de amor e muita festa.

À meia-noite o ar todo se infesta
Da luz de mil rojões em cores gris,
É a hora em que o amor cínico se atesta
Ao Príncipe dos Céus, néscio Juiz!

E enquanto os redentores midiáticos
Derrubam em meu colo, a avalanche
De preços e anúncios que são mágicos!

Ordenam, sem pudor, que eu esbanje...
Não quero ser um desses ateus trágicos,
Mas sei que até o Diabo se constrange!...