Opúsculo de um Vencido

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Versos quase Íntimos

Adoro esconder-me em teus cantinhos!...
Dos mais comuns àqueles mais trigueiros,
Distingo-os pelas formas, pelos cheiros!
E a todos Amo e rendo meus carinhos...

São sempre meus mimados queridinhos,
Nós somos uns dos outros, prisioneiros,
Parecem, quando acordam, cem isqueiros,
Ardendo entre as matas e os caminhos...

Nas noites de intragável isolamento,
Eu choro, grito, uivo, ó, Deus, eu tremo!
E aturo um Coração bem rabugento,

Que viu nesse calor, quase supremo!
A verdadeira entrega e o sentimento
Alçarem-se ao Dom do gozo extremo!

(Queiroz Filho)

Amor!

O Amor que já foi arte, hoje é suborno,
Que aos desvalidos deu seu veredito:
- Se não cresceres rico, ou então, bonito,
Tu não terás de mim nenhum retorno.

Aceites do sarcasmo, o vil adorno,
Ou peças para Deus um plebiscito!...
Pensando bem, não trames tal delito;
Fervas teu coração dentro dum forno!...

O fato é que o prazer de friccionar
As sensitivas partes de uma Greta,
(Eu sei que morrerei, mas vou falar!)

Não digam que sou filho do Capeta,
Meu Amor, é o ingênuo ato de gozar
Batendo uma punheta em tua buceta!...

(Queiroz Filho)

Decadentismo...

Após o gozo, a culpa pela ausência
Do nobre e imprescindível sentimento!...
Mas logo a moleza e o esquecimento,
Retomam, do egoísmo, a sapiência...

Qualquer Idealismo é decadência;
Um estúpido clichê, nada moderno!...
Spleen ou Carpe Diem? Nada é eterno!
A vida em si é a própria aparência...

Se a Puta ao escapar dum bacanal
E após chegar em casa, ali se deita
Com o seu suposto macho oficial.

Exausta, sua greta, então, rejeita,
Ou goza, mas de forma maquinal,
É que no amor só isso se aproveita...

(Queiroz Filho)

Soneto Letrado

O ”A” é a vogal mais indecente!
Aonde já se viu!.... Uma menina
De saia, com a bunda para frente?!
Será que comprou bala na cantina

Mas a deixou cair, lá de repente?
Enfim, vamos ao “E”que me alucina,
Por ser mais que as outras, diferente:
Tripé que vivi em pé, é a sua sina!

Qual o cara dessa época antiga,
Que tonto, tem de ornato o mundo todo!...
Aonde eu parei? Ó “IIII!”, Me diga!...

Serás o pé do “E”, que ao “F” podo?...
Enquanto o “O” é a boca com fadiga,
E o “U” é só um buraco sem engodo!...

(Queiroz Filho)

A ferida

Contigo, meu qualquer, não mais me melo,
Cansei de confeitar as esperanças!...
Não temos, nem tivemos, nunca um elo!...
Os versos que pari são as crianças

Que eu gerei no ócio do duelo
De nossos egos cheios de vinganças!
Autênticos qual um lindo céu amarelo,
Aberto ao sol das vãs desconfianças!...

Tu me deixaste só nesse inverno,
Mais drástico que a honrosa falsidade
Que rege o teu caráter subalterno.

Sendo que eu te pedi só a lealdade
A simples lealdade ao amor fraterno,
Que lembra hoje de ti por caridade.

( Laura Alves Coimbra )

Profissionalismo

A minha incasta alma de isopor,
Caiu sobre os teus pés, exata e nua,
Tocou os seios seus com igual ardor
Ao da puta que ao cliente se insinua!...

Não estranhes a ousadia, meu amor,
Pois eu e a minha alma, somos tua!
Mesmo que não nos queira, é um favor,
Que pago à tua vadia Deusa Lua!...

Se quiseres, eu interpreto a Cadela,
A quem em tortas noites de exagero,
Dizias: - Mais que todas, tu és bela!...

Abrir-te as pernas, já, é o que quero,
Mas se outro abraçar minha bagatela,
Após meu expediente eu te tempero!...

( Laura Alves Coimbra )

domingo, 25 de novembro de 2012

Suplica Suprema

Nas maléficas horas, que parido
Em Natalícia aurora, assim, o vi,
Bradara à Juno, Jove enfurecido,
Ao vê-lo, ao topo, achegar-se ali:

- Recolheis, ó, tola, tal injúria, a si,
Pois ultrajastes vosso bom marido
De quem Saturno, já se gaba e ri,
Sob sua mortal forma, envelhecido.

O que ora quereis como castigo?
Meu onipoptente raio fuzilante,
Ou o Cáucaso de trono e abrigo?...

Não vede que o ser, de vós, diante,
É deste Soberano, o eterno imigo,
Que do vosso amor me porá distante?...

( Queiroz Filho )

sábado, 24 de novembro de 2012

Senhora

Se amor, Senhora, tanto me ordena
Que seja posto em vós, o meu cuidado,
Debalde é pelejar com minha Pena,
Pois deste mal, ao bem, vivo curvado.

Nas perfeições que só Eros encena
Aos olhos que por ele, são flechados,
Vede quão tolo exemplo fora Helena,
De quem Teseu furtando agrados.

Quando de Razão, bem desprovido,
Viu a bailar com graça aquela Musa,
Que à paixão seu peito viu rendido

Mais que a nefasta vista de Medusa,
Sem ver que esse amor tão desmedido
Traria à Ilión a atroz desgraça inclusa...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

À Predileta

...E dissipou-se em nós toda a magia,
Nascida dum instante assombroso,
Em que o meu gozo uni ao teu gozo
Em um misto de ardor e nostalgia.

Uma sublime Voz nos conduzia
A um Império todo altivo e poderoso,
Maior que todo o espaço nebuloso;
Mais Belo que a Luz que gera o dia...

Por isso em minha lucidez malsã,
Dos seios teus, eu fiz o meu divã,
Pois foste minha Musa predileta.

Em místicas ternuras transcendentes,
Queimando corações, almas e mentes,
Queimando, meu amor, o teu poeta!...

( Queiroz Filho )

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Megalomaníaca

Sou Megalomaníaca em sentir
A vida em seus mais íntimos recantos...
Teimosa em reviver, em repetir,
Os velhos versos vãos, os desencantos...

O Tempo fez em mim sua arruaça,
Pois ele não distingo e não retalho,
Futuro - Hoje em mim, ligeiro, passa...
Preguiça - És meu digno trabalho!...

O tempo encolheu as minhas vestes;
Queimou minhas lembranças da infância,
E inverteu meus Nortes e meus Lestes...

Neurastenia é Paz sem elegância,
Oh! Meu amor, o anel que tu me deste,
Morreu com a memória de criança!...

( Laura Alves Coimbra )

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SE EU RECEBESSE AMANHÃ

Se eu recebesse amanhã, pagaria ao menos
O que há tempos devo a minha triste irmã;
Minha mãe de espanto morreria
Se eu recebesse amanhã!

Quanta dívida pressinto em meu futuro!
Sem dinheiro pra sair, nem amanhã!
Acharia mais amigos, mais amores
Se eu recebesse amanhã!

E um sol e um céu azul e até uma praia!
Na longa tarde bela no farol de Itapuã!
Não me chegaria tanta cobrança à porta
Se eu recebesse amanhã!

Mas essa mesquinhez que me devora
A ânsia de chuchar e faz da noite uma vilã...
Motivo teria para ir até a esquina, ao menos,
Se eu recebesse amanhã!

( Queiroz Filho )

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Coração

Ó, coração! O que te irrita, dizes?...
Não mais aceitarei tais cerimônias!
Confessa-te e seremos mais felizes
Pois juntos enterramos as insônias.

Que tanto nos fizeram passionais
Ao julgo do amor e da esperança...
Às vezes, és pior que uma criança
Birrenta, a dizer - Não quero mais!

A minha calma ainda não é Santa,
Entendas de uma vez, menino chato!
Sou eu quem te escuta e te canta,

Por isso me ouças - Chega de recato!...
Tu does em mim, amigo, e a dor é tanta,
Que esqueço que és eu e até me bato!...

( Laura Alves Coimbra )

Das Aparências

Toda a deficiência trás consigo
A velha ignorância, o preconceito,
Que faz o portador crer no castigo
De ser só a escória sem proveito

Ao Mundo, que altera o perfeito
Por meio do Arianismo excludente.
Ser bom é pouco, seja excelente!
Não erre, não rasure, tenha jeito!

Perucas, silicones, cirurgias,
Que importam se a vida é postiça?
Viver é se jogar nas mordomias.

E ter mais do que pede a cobiça!...
No Século das vis Hipocrisias,
Teu bolso te dirá o que é justiça!...

( Queiroz Filho )

O Vadio e a Lua

Ei-la surgida em tal noite matreira,
Já estampada ao Céu em alto ponto,
Singrando as horas, a Lua fagueira,
Consola as dores dum vadio tonto.

Que vomitando sonhos na algibeira,
Ébrio soluça em cada canto um conto;
Cantando a vida sem eira nem beira,
Peitando a razão em reles confronto.

Enlaça as suas tripas vis, malsãs
Na bela face dessa ingrata Amante,
Pra que lhe não fuja nas vitais manhãs

Em que o silêncio rasga-lhe o semblante,
Mas louco não vê que as paixões são vãs
E qualquer amor dura um breve instante...

(Queiroz Filho)

Das Conveniências

Amei-te no intervalo de um gozo;
Nas gulas desse meu tesão distinto
E dei-te o meu suor mais precioso,
Inflado pelas mágicas do instinto...

Eu partilhei contigo o vinho tinto
Que deixo para o instante doloroso
Onde te provarei que eu não minto
Ao desejar teu corpo criminoso.

Portanto, meu amor, nada te devo!
Romance é uma bobagem passageira,
Casório é loucura... Não me atrevo!

A mais fiel será logo a primeira
Que se abraçará a algum bom trevo
Temendo que a taxem de rameira!...

(Queiroz Filho)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Meus Semelhantes

Os feios quando andam pela rua
Evitam mais que tudo a indiscrição:
Abaixam a cabeça em submissão
Ao Belo que desfila e que flutua

Como se seu destino fosse a Lua
Ou ostentasse um Sol no coração!...
Enquanto em sua amarga solidão
A ouvir a gargalhada sempre crua

De seu superior, de seu bom chefe!
Que lhe cravou na testa um belo Efe...
Resiste, cala e aceita o seu Castigo.

Sua moral não quer mais uma sova,
Além do mais o fim é sempre a cova
E lá não existe espelho, bom amigo...

(Queiroz Filho)

Prometo

Prometo que não falarei de nós,
Agora e nunca mais; nem do amor!
Mas faço-te um apelo, por favor,
Não ouses desatar os nossos nós...

Dissimulando os contras e os prós
Com essa razão manca e sem valor!
Que faz dum Barrabás, um Salvador...
Encerro o tal apelo e a minha voz

Nas linhas desse cármico Soneto,
Tão nova, ó meu Deus e já tão louca!
Não caces coerência, não prometo!...

Adeus amor, a vida é-me pouca!...
Ofélia está boiando em meu peito...
As lágrimas recaem, a voz é rouca!...

( Laura Alves Coimbra )

Retrato

O Liliputiano Poetastro!
O procrastinador por profissão;
O espedaçado vaso de alabastro;
O triste filho calvo de Sansão;

O rato que ideava ser um astro;
O preguiçoso Hefesto sem brasão;
O caluniador Filosofastro;
O mago sem varinha de condão;

O bailarino cego, cheio e coxo;
O Clown adoecido de cansaço;
O seco e apodrecido lírio roxo;

Eis-me ai pintado em rude traço,
Agora vou dormir meu sono chocho,
Adeus, té amanhã, aquele abraço!

( Queiroz Filho )

sábado, 10 de novembro de 2012

Carpe Noctem

Depois de tantas lutas, tantas quedas!
Mais corajoso ao mundo tu te mostras,
Não perdes teu orgulho, nem te prostras
Ante as imundas cifras das moedas...

Teus pesadelos tortos, viscerais!
Teu chope com espuma de arsênico;
Teu Gênio de Profeta esquizofrênico;
Conduzem-te aos Édens infernais.

Lá aonde a tua Alma te vomita
A cada aparição Mefistofélica
De tua inspiração sempre maldita!

Surgida sob a forma Cadavérica
Dum anjo que ao teu ouvido, uiva, dita!
As dores dessa consciência histérica...

(Queiroz Filho)


P.S: Para Diego El Khouri

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Te perdoo

Eu te perdoo, amor, pelo teu crime,
Pelo desprezo, pelo insulto, pela dor!
O ódio que eu matei, já te redime
Desse remorso inútil e enganador...

Não sejas de si próprio o traidor...
Se em teu leito a solidão te oprime,
É que viveste uma vida sem amor!...
O êxtase é o vinho mais sublime,

Decerto, meu amor, mas ele ilude
Quem dele a vida toda se embriaga,
Pois tira o que te deu: – A juventude!

E essa dor em nós jamais se apaga,
E se te dar adeus, nem isso eu pude,
É que inda tua presença me esmaga!...

( Laura Alves Coimbra )

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Negação

Tu que amas a Beleza sem saber
Sequer aonde nasce sua harmonia,
Se é belo aquilo que te dá Prazer
Ou aquilo que nos dita a maioria.

Quiçá seja por simples covardia
Que aceitarás calado até morrer,
Essa autopunição que te crucia
Na austera solidão do alvorecer...

Beleza não é Dom, nem vocação!
Nem arte, nem caráter, nem conceito,
Ciência, Sapiência ou Perfeição;

É a inconsciente busca do sujeito
Que idolatrando a própria Negação,
Avista até em Deus algum defeito...

( Queiroz Filho )

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lista

Tufões, tornados, trevas, precipícios;
Enchentes, secas, chuvas, tempestades!
Assassinatos, sonhos, Guerras, grades;
Demônios, Anjos, pestes, genocídios;

Angústias, medos, mortes, suicídios;
Profetas, Papas, Chefes, Santidades;
Milênios, Anos, Séculos, Saudades...
Batalhas, Lutas, Lutos, Sacrifícios;

Paixões, Desejos, Gozos, traições;
Amores, Filhos, Netos, Casa, risos;
Doenças, Mágoas, Fé, Superações...

Viagens, descobertas, compromissos;
Descanso, Sono, Adeus, Aceitações:
- A Vida é planejar seus improvisos...

( Queiroz Filho )