Opúsculo de um Vencido

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mau Cheiro

O papel higiênico
Com que limpo a bunda,
Nessa manhã manca
de uma triste segunda,
Está me dizendo
que aumentou seu preço
E que seria bom economizá-lo,
Talvez substituí-lo
Por um jornal de merda
ou uma revista
que já cheire mau...
Mas eu lhe digo,
Meu amigo!
Redundâncias,
não se dão comigo!...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desgosto

Tão bela arrumei-me hoje pra ti
Que a euforia em mim fazia festa!
Vesti-me com o Azul de tua testa,
Maravilhoso azul que hoje sorri

Aos lábios meus abertos só pra ti,
Mas sinto que alegria me detesta!
E a esperança é a carne indigesta
Que ao molho de meu ódio, engoli!...

Agora a solidão é o meu abrigo,
Mas não verás minha lágrima cair,
Pois beijarei até o teu inimigo!

No tresloucado impulso de rugir
Mais alto que a mágoa, que o castigo!
De amar a quem de mim vivi a fugir.

( Laura Alves Coimbra)

Tempo

Relógio ou calendário - não importa!
Se a própria vida é lança e armadura...
E o Tempo é tão-somente a mera porta
Entre o útero materno e a sepultura!

Os Anos só nos servem de atadura
À mágoa que a memória não suporta!
O ódio é uma moléstia que se cura
Nas orações de uma crença morta...

A lágrima que cai sobre o teu rosto
Às rotações do mundo é indiferente!
O amor que te deixou e hoje é desgosto

É o mesmo que não sai da tua mente,
Perder é envaidecer-se a contragosto,
Pois ser sozinho é a dor de toda gente...

( Queiroz Filho )

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Sim!

Nessa poltrona escura, cá isolado,
As vãs lembranças tornam-se tormentos...
Gozei na juventude bons momentos!
Mas hoje a velhice anda a meu lado.

Deslizo-me nas brisas dum charuto
E guerreando vou co’ as memórias
Duma mulher que hoje é o meu luto!
E a causa dessas fugas provisórias...

E assim nos rituais sempre vulgares,
O atormentado velho que há em mim!
Vai resmungando à vida, seus azares,

Somando os trinta e dois que vivo, enfim?...
Aos seus trinta e dois nãos soltos nos ares!...
- Será que para o Amor existe o sim?...

(Queiroz Filho)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Espelho

O teu semblante triste me revê-la
Que os sonhos te deixaram para trás,
Cansados de viverem pra teus ais,
Teu hausto desbotaram na aquarela

Dos teus mais descabidos ideais,
Sonhavas ser um dia a Cinderela,
Mas viste que o espelho não é a tela
Mais adequada aos traços joviais

De tua frágil mão tão pequenina,
Morreste com teus sonhos de menina!
E agora até o silêncio te espezinha

Ao vê-la ai chorosa rente ao espelho,
Culpando um coração inda fedelho,
Que na Arte do amor só engatinha...

( Laura Alves Coimbra )

domingo, 9 de dezembro de 2012

Ode em soneto À cidade do Recife

Minha Deusa, jamais vista, jamais
Pisada, jamais amada; em meu não-amor,
Te amo! Em meu não-amor, quase impostor!
Além do que é Amor, te amo mais!...

És minha mais inconsequente calma!
Em mim não existes, porque já existes!...
E aqui és mais real que os sonhos tristes
Que habitam esse porão chamado alma.

Agora já nem sei se eu quero ver-te,
Talvez melhor existas como um flerte,
E é como eu te preciso, meu Talvez!...

E quando a vida, enfim, me der licença,
Comigo enterrarão a altiva crença:
Que para o Amor, a Morte é sensatez!...

( Queiroz Filho )

Velho Tema

Na curva do caminho,
uma aluno e uma crase se olharam,
acidentalmente.
A reação foi espontânea e mútua:

ÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀÀ!...

Q. F.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

2º Poema da Necessidade

É preciso salvar José,
É preciso suportar Michel,
É preciso odiar Fernando,
É preciso acordar nós todos.

É preciso sair do país
É preciso criar um Deus,
É preciso omitir as dívidas,
É preciso comprar um PC,
É preciso esquecer a Baiana.

É preciso estudar física Quântica,
É preciso fingir-se sempre bêbado,
É preciso ler Drummond,
É preciso vencer as dores
Que, nos causaram, certos autores.


É preciso crer em lobisomens,
É preciso, sim, reinventá-los,
É preciso colher flores pálidas
E anunciar o INÍCIO DO MUNDO.

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

II Hino Bocional

De quatro eternamente ao Blush esplendido,
Ao som do tal Michel sempre profundo,
Torturas-te, ó Brasil, Michê da América!
Visado pelos Trolls do Novo Mundo!

Mais que a Terra tens guarida...
Teus tristonhos pastos santos tinham flores,
“Tuas praias tinham vida,
Nossa vida hoje é esterco aos teus favores.”

Ó pátria assada,
Confinada,
Corre! Corre!

Brasil teu Mal eterno seja símbolo
Ao gringo que o teu sonho viu frustrado
E diga o verde-esterco dessa flâmula:
“Roubar sem avisar é muito errado!”

Mas se ergues sem lembrança a tua sorte,
Verás que um Collor teu não foge à luta,
Cagando e andando a quem visou sua morte!

Terra encalhada,
Entre outras mil,
Tens mais xibiu,
Ó, Pátria atada!

Dos filhos deste rolo, és Mãe sem brio,
Pátria atada,
Brasil!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Plantão Lexical

Extra! Extra! Bombástica manchete:
- Brasil declara Guerra à Pasárgada!
Lirismo sitiado!... Rimas em greve!
E o Rei Pasargadense sequestrado...

O caos tomando conta das cidades;
Línguas incendiadas se amortalham
Jogando-se dos Lusos edifícios...
Deixando os testamentos lexicais

Ao próximo imbecil que sem juízo,
Venha lhes dar o mesmo triste ofício
De ser menos prazer que sacrifício

Ou estúpida rima chata e acidental...
Encerra-se aqui o nosso plantão,
Já, Já! Voltamos; queira, Deus, que...

( Queiroz Filho )

sábado, 1 de dezembro de 2012

Rotina

Ralar dia após dia... Acordar cedo;
Amar e educar todos os seus filhos;
Recomeçar no amor sob outros trilhos;
Viver pra se valer do próprio medo;

Domar e enfrentar suas fraquezas;
Reconhecer o insulto às sardinhas,
Em latas espremidas, pobrezinhas!...
Não convidar pra cama, as tristezas...

Se queixar que o Domingo foi ligeiro...
Chorar com a Saudade desse cheiro,
Talvez do teu pescoço ou dos cabelos...

Olhar para o Passado, indiferente...
Sorrir para os tropeços do Presente;
Fingir que um dia iremos esquecê-los...

(Queiroz Filho)