Opúsculo de um Vencido

domingo, 15 de dezembro de 2013

Lástima

Apalpo as tuas ancas delicadas
E giro-te a trezentos e sessenta...
Escorro as minhas mãos enfeitiçadas
No vão dessa virilha macilenta...

Oh! Eróticas folias bem gozadas...
Obediente voz a ouvir-me: - Senta!...
Cortinas, pelo vento, esvoaçadas...
Relinchos prazerosos de jumenta...

E o gozo ancorado na exaustão
Da Glória do amor que uso e desprezo...
À cama um livro aberto de Platão!...

Ao chão, rabiscos parcos de um leso!...
Nos meus olhos vazios a Maldição
De ver que sobre qualquer Alma, peso...

( Queiroz Filho )

domingo, 8 de dezembro de 2013

Soneto

Tremulavam os olhos da enfermeira,
Por ver outro ancião que estrebuchava:
Misericórdia Oh! Pai!... Assim berrava,
Furtando da Alma a força derradeira.

Inválido. A causa foi cegueira,
Sozinho neste Mundo se achava,
E era de favor que ele morava
Num quarto sujo feito de madeira.

Já de seu corpo, o Espírito partia.
Sua mão direita, à dela, entrelaçada,
Lembrava a do Amor que lhe fugia

Naquela retrospecta madrugada.
Em lágrimas rompeu-se, mas sorria
Ao ver as duas Almas na sacada...

(Queiroz Filho)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Festim Augusto

Eis o festim necrófago do Verme:
O cérebro a escorrer pela narina;
Nojento pus minando de epiderme
E o nauseante odor da putrescina

Ao bafo podre de uma larva alegre.
Té que a carniça próspera sulfídrica,
A Morte ou outro nome a desintegre
Na substanciação da forma anídrica...

Já ao fenomenológico desastre
Do óvulo que ao ventre se fecunda,
Exijo bom doutor, que ora me castre!

Amaldiçoo-te Prole nauseabunda!...
Que anseias que meu sêmen se alastre
Ao embrionário horror da luz imunda!...

( Queiroz Filho )

Asco

Ser feto estraçalhado na placenta
Ou ter do próprio estupro a lembrança?...
Chorar ao relembrar a voz nojenta
Do porco a te beijar inda Criança!...

Herdar a culpa dessa podre alma;
Por qualquer homem ter forte aversão;
Ver traços suicidas em seu trauma
Que a fez crer que a vida é maldição...

Notar o olhar sarcástico do moço
Que te cobrou tarifa do transporte,
Por se vestir estranha até o pescoço...

O social convívio é mesmo a morte:
Mutiles teu clitóris! Jogue-o ao fosso!...
O autodesprezo agora é tua sorte!...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Epifania Niilista

Nesta nojenta esfera azulada!
Um mostro prepotente e arrogante,
Ora vê perto, o seu fim distante,
Ao aceitar, enfim, que não é nada!...

Renego esse critério absoluto
E lanço à lama a máscara cristã:
Deus não existe e nem sequer Satã...
Nascer é epifania para um luto...

Moral prostituída e tarifada!...
Ratos gordos que brigam por migalhas...
A fé que se tornou a algoz cilada...

- É para ser vegeto que trabalhas!...
A Alma por "vazios" foi infectada...
E a morte é a perfeição em suas falhas!...

( Queiroz Filho )

domingo, 10 de novembro de 2013

Maturidade à L.A.C.

A vida, ó meu Amor, a vida passa!
Ligeira como uma chuva de verão,
Então, se hoje tu tens meu coração,
Apressa-te a enchê-lo dessa graça

Que em duas, uma vida, cá enlaça,
E doura de ilusões nossos caminhos!
Até que enfim sejamos dois velhinhos,
Sem ímpetos ingênuos ou trapaça...

Se existe no amor algum requinte,
Decerto é esse nosso almo respeito.
A maquilagem exclua; não se pinte!...

Descanse tua cabeça em meu peito,
Perdemos a euforia de ter Vinte,
Mas somos um ao outro, insuspeito...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Paz

Procuro entre o silêncio absoluto,
Que em minha Alma vã interiorizo,
Silêncio que é quase o próprio luto
E junta às minhas lágrimas o riso

De resignação ao Mundo bruto,
Nem sei o que procuro, mas preciso!...
Procuro, pois não o vejo, mas o escuto,
Num brado delator em meu juízo...

Talvez seja a essência em mim perdida,
Talvez seja até mesmo a própria vida!
Que por meu erro vil só andou pra trás...

E é assaz ingênua em si essa cobiça
Que só em farturas mil se desperdiça...
Seu nome agora sei - Se chama Paz!

Queiroz Filho

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Soneto a mim mesma...

Que arrepiante febre te amortalha
Esplendida criança dos meus sonhos?!...
De quem herdaste estes olhos tristonhos,
Feridos em tua íntima batalha?...

Qual é o oculto medo que retalha
Os teus sorrisos fartos e bisonhos?...
Teus pobres pesadelos tão medonhos
Fizeram-te mais leve que uma palha?!...

Em qual longínquo número perdido
De teu embaralhado calendário
Tombou o teu Espírito esquecido?

Que homem traidor, que salafrário!
Negou o seu coração, ter prometido?...
Amar quem já se foi... Desnecessário?...

(Laura Alves Coimbra)

Sentido...

Nas inimagináveis vastidões
Do retumbante Cosmo criador,
Nós somos refratários embriões
Na busca dum sentido adulador...

Amamos nossos sórdidos vilões;
Chamamos de amigo, um traidor;
Ferimos os mais puros corações;
Mentimos piamente à nossa dor...

E após tantos tropeços previsíveis,
Sentimo-nos vãos seres invisíveis:
Sem rumo, amor, afeto, fé ou pão!...

Banhados de remorso estapafúrdio,
Provando o próprio vômito estúrdio,
Beijamos nosso Pai sobre o caixão...

(Queiroz Filho)


domingo, 15 de setembro de 2013

Janela

Havia uma janela em meu quarto
De humanas paisagens triunfais!
Mas hoje uma janela não é mais:
Imagem natimorta e sem parto...

Prosaico muro içado à frente dela,
Cobriu-a com silêncios sem reboco...
Oh, ditatório e estático Sentinela!...
Tu queres me vetar, deixar-me louco?

Abaixo este resquício de Berlim!...
Do que me vale ter olhos sadios,
Se não terei uma luz após meu fim?

Esta parede causa-me arrepios!
Não vou hoje sair... Não estou afim,
Vou assombrar os vivos com meus tios!...

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Talvez seja uma herança de vovó,
Sentir-se desse quarto, a prisioneira,
A vida é companhia e eu estou só!
Sozinha no silêncio e na poeira...

O amor tornou-se a reles baboseira,
Que hoje em desprezar, não tenho dó!
A mágoa é sempre bem mais verdadeira
Que uma paixão fadada a ser só pó...

E a única amiga que hoje eu tenho
É uma enfadonha traça que caminha
Na página que em mãos ora detenho.

Marchando entre letras de Caminha,
És lenta como a dor do grosso lenho
Da vida que ganhei, mas não é minha...


( Laura Alves Coimbra)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Albergue

À envernizada mesa se ostentava
Um carcomido e rude candelabro,
Vestia-se de enxofre o odor macabro,
Enquanto, a noite, ali, se declinava.

Uma coruja ao longe, agourava,
Do albergue, esse sinistro descalabro,
Pois lá morrera o pobre jovem glabro
A quem só o silêncio amparava:

Ó, que horrendo e trágico opróbrio!...
Um tiro disparou contra si próprio
E estrebuchou sozinho sobre o chão,

Que Deus tenha essa alma, perdoado!...
Miolos!... Sangue!... Dor por todo lado!
... Demônios lhe arrastam pela mão!

( Queiroz Filho)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Gratidão

A tua teimosia me enfurece...
Se ao menos tu tivesses estatura!
És pequenina... Mista criatura:
Moldada pela fúria e pela prece...

Da dor alheia mais te compadeces
Do que da tua própria amargura,
Teu coração, do amor, é a moldura!...
E da crueza humana, bem conheces,

Pois vives de revolta, inflamada.
Compreendes dum olhar, a comoção,
E sabes bem amar e ser amada.

Quisera em segredo, ser-te irmão!
E enfim, fazer sentir-te abraçada,
Num gesto de carinho e gratidão!...

(Queiroz filho)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ultimato

Não lhe urdirei em versos a leveza
Das formas de seu lábio escarlate,
Não vou mimar-lhe em tom tatibitate,
Nem lhe elevar ao topo de Princesa.

Nem revelar-lhe em lírica certeza,
Que são seus olhos joias de quilate
Maior que as destrezas desse vate
E a inspiração sombria em si acesa...

Se Poesia almeja, me provoque!
Confine-me, nos seus sonhos, recluso,
Com seu castiço choro, me retoque!...

Permita-me morrer e ser o intruso
No seu maior segredo; a Dor invoque
Dessa saudade em mim, fora de uso...

( Queiroz Filho )


P.S: Para uma colega do trabalho que sem me permitir conhecê-la, me inquiriu alguns versos...

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Prece

Omnipotente Astro majestoso!
Silencioso Espírito de Deus;
Terror particular de nossos breus:
Essência do que é belo e poderoso:

Divina chama; Mãe dos apogeus:
Santifiques, ó Rei, nossos suores,
Moldes com tua Luz dias melhores,
Reveles o mistério desse Adeus

Que o corpo dá à Alma, erroneamente!...
Que, Deus, se a Saudade, nos consente,
Não nos consente ver, da alma, Além...

Aqueças nossas lágrimas geladas,
Proteja-nos das Noites assombradas,
Proteja-nos, enfim, de nós também!...

(Queiroz Filho)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

...

Atapetei a vida com espinhos...
Um pássaro pousou no meu olhar...
Embriaguei teus vagabundos vinhos...
Razão, dê-me licença, vou passar!...

O teu pudor me inibe de gozar...
Confessionalistas são mesquinhos...
Jeová, palma com palma a nos orar...
Satanás coze auréolas aos anjinhos...

Tu, meu ronceiro coração ranzinza...
Fingiu-se nosso azul de negro cinza...
Troquei palavras com a noite muda...

Loucura, incoerência ou solidão?...
Careço é, enfim, sair desse alçapão...
Não acho um suicida que me acuda!

( Laura Alves Coimbra )

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Formosa

Como és formosa, ó, amada minha
Qual o roxo lírio eis que és formosa,
Teus olhos são as pombas que asinha
Lá ao Céu elevam a Alma jubilosa

Deste almo pastor que se encaminha
Às colinas da espádua mais viçosa,
Aonde jaz em fio a mansa cabritinha
Do rebanho de tua madeixa mimosa...

Que de Sião, ante o gigante Gileade,
De haver, não poderá, fronte mais bela,
Tão ornada de Ternura e Bondade...

Ó, minha amada amiga e doce gazela,
Do régio Amor, me tiraste a Liberdade
E do ciúme, em par, deste-me a cela!...

Queiroz Filho

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Desolação

A manhã já se foi e a tarde finda
Na vaga Luz do Sol já preguiçoso
E eu ouço o coração bater ansioso
De perguntar se pensas nele ainda.

Aguardo, pois, calada, tua vinda,
Pensando nesse abraço carinhoso,
Que há de selar num gesto mavioso
O fogarento beijo, a chama linda

De nossos lábios fartos de ternura!
Mas meu amor tardou e não mais vem!
Acaso, me examina na tortura?...

Ou triste chora, como eu, também?
Já basta!... Compreendo nessa altura...
O meu eterno amor não é ninguém!

( Laura Alves Coimbra)

Escusa Falsa

Caminho sobre poças na calçada,
Que a chuva me cedeu, mimosamente,
Nesta cumprida rua, tão sem gente!
Sozinha eu velo a paz da madrugada.

A solidão em partes me agrada,
Quando de mim não sinto-me ausente,
Ou quando cá me vem, constantemente,
Ao menos diz bom dia na chegada...

Que digam: - Está louca, essa mulher!
De vestido ensopado e inda descalça,
Se expondo sem pudor a quem quiser

Possuí-la na mais indecente valsa!...
Reponderei que dou pra quem vier...
- A solidão é a mera escusa falsa!...

( Laura Alves Coimbra )

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

As coisas existem através de nós

As coisas existem através de nós:
Uma cama é uma cama, porque assim a chamo!
E porque todas as angústias minhas dormem sobre ela.
Amar-te, meu amor... Não, não te amo!
Amo a ideia que sobre o amor, concebo.
Amo mais o sonho de tocar tua pele
do que a verdade do ato de tocá-la.
Assim eu sou, assim serei, assim nos sinto!

A imaginação é tudo o que somos!
Enquanto puderes ir além das enganosas imagens
que os teus olhos criam,
Saibas, querida, que ainda és humana.
E que Deus só é triste em sua grandeza
Porque não terá ninguém pra chorar sua morte.
Ninguém que um dia lembre
Sob olhos embargados da maior verdade
Que um dia, meu Deus, foste meu Deus...

Q.F

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A Casa

O mundo é um bêbado
Que já pouco sóbrio, ao sair de sua casa
Para beber mais,
Esquecera o percurso de volta.

Por isso, apenas vaga inutilmente,
Por entre as ruas ermas de sua psique.
Dando voltas nos quarteirões de sua memória
Sem poder mais
reconhecer a sua casa,
mesmo que esteja ao pé dela.

A casa onde fizera a sua vida;
A casa dos amores ressentidos;
A casa aonde amara os seus filhos!

Pobre bêbado sem pecado!
Um dia, em outro mundo,
sobre outra esfera,
Hás de voltar à ela!

(Queiroz Filho)

domingo, 6 de janeiro de 2013

Meus Trambolhos

O empoeirado Livro que me lê,
A alma do poema que me escreve;
A covardia audaz que me atreve;
A escuridão sombria que me vê;

A visceral ferida que me escorre;
O Arque - inimigo que ainda amo.
A vida que na morte me proclamo...
O Deus que amiúde sempre morre!

A lesma que até hoje me persegue;
As lágrimas que me choraram olhos;
O amor que o Diabo lhe carregue;

As sepultadas almas sem refolhos;
Oh! Pedro, Pedro, Pedro, não se negue!...
Eu sei - versos não são; talvez trambolhos!...

( Laura Alves Coimbra )