Opúsculo de um Vencido

domingo, 15 de setembro de 2013

Janela

Havia uma janela em meu quarto
De humanas paisagens triunfais!
Mas hoje uma janela não é mais:
Imagem natimorta e sem parto...

Prosaico muro içado à frente dela,
Cobriu-a com silêncios sem reboco...
Oh, ditatório e estático Sentinela!...
Tu queres me vetar, deixar-me louco?

Abaixo este resquício de Berlim!...
Do que me vale ter olhos sadios,
Se não terei uma luz após meu fim?

Esta parede causa-me arrepios!
Não vou hoje sair... Não estou afim,
Vou assombrar os vivos com meus tios!...

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Talvez seja uma herança de vovó,
Sentir-se desse quarto, a prisioneira,
A vida é companhia e eu estou só!
Sozinha no silêncio e na poeira...

O amor tornou-se a reles baboseira,
Que hoje em desprezar, não tenho dó!
A mágoa é sempre bem mais verdadeira
Que uma paixão fadada a ser só pó...

E a única amiga que hoje eu tenho
É uma enfadonha traça que caminha
Na página que em mãos ora detenho.

Marchando entre letras de Caminha,
És lenta como a dor do grosso lenho
Da vida que ganhei, mas não é minha...


( Laura Alves Coimbra)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Albergue

À envernizada mesa se ostentava
Um carcomido e rude candelabro,
Vestia-se de enxofre o odor macabro,
Enquanto, a noite, ali, se declinava.

Uma coruja ao longe, agourava,
Do albergue, esse sinistro descalabro,
Pois lá morrera o pobre jovem glabro
A quem só o silêncio amparava:

Ó, que horrendo e trágico opróbrio!...
Um tiro disparou contra si próprio
E estrebuchou sozinho sobre o chão,

Que Deus tenha essa alma, perdoado!...
Miolos!... Sangue!... Dor por todo lado!
... Demônios lhe arrastam pela mão!

( Queiroz Filho)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Gratidão

A tua teimosia me enfurece...
Se ao menos tu tivesses estatura!
És pequenina... Mista criatura:
Moldada pela fúria e pela prece...

Da dor alheia mais te compadeces
Do que da tua própria amargura,
Teu coração, do amor, é a moldura!...
E da crueza humana, bem conheces,

Pois vives de revolta, inflamada.
Compreendes dum olhar, a comoção,
E sabes bem amar e ser amada.

Quisera em segredo, ser-te irmão!
E enfim, fazer sentir-te abraçada,
Num gesto de carinho e gratidão!...

(Queiroz filho)