Opúsculo de um Vencido

sexta-feira, 14 de março de 2014

Rejeição

Respira a noite a Alma do mistério...
O vento frio galopa sobre as praças,
O céu escuro é um manto de desgraças
Ao filho que se arrasta ao cemitério

A ajoelhar-se diante de um túmulo
De murchas rosas rubras, adornado,
Seu coração é um prisma espedaçado
De rancorosas cores em acúmulo...

É o corpo de seu pai que lá estava.
O pai que não lhe dera um só carinho;
O pai que entre os irmãs, o rejeitava!

O pai que o alcunhava: Pobrezinho!...
Enquanto o filho, à cova, o relembrava:
Perdão, meu pai, se te amei sozinho!...

(Queiroz Filho)

quarta-feira, 12 de março de 2014

Ao Mestre com pavor

Augusta Alma triste e atormentada,
De hediondos sonhos humanistas...
Que Deus foi que turvou as tuas vistas?
Existe algum sentido para o nada?...

Ó meu apodrecido mestre exato!
Agora não és mais que carne morta,
Mas o que desde lado me conforta,
É que rompeste o arcano abstrato,

Roubando os tesouros do infinito...
Beijo teus ossos, mestre, em teus versos,
E na cósmica Angústia de teu grito

Vagueiam meus ouvidos, submersos.
Teu pergaminho tétrico é um Maldito
Apocalíptico uivo aos Universos...


( Queiroz Filho )

Desperdício

Toda a palavra em si é desperdício,
Por isso que te escrevo sem pensar...
Mas toda a forma em si é já um indício
Que um gosto lá está a se realizar...

E um gosto dissimula-se de vício,
Então, como eu te falo sem falar?...
Renego-me mulher e sou o solstício
Silenciosamente a te afagar!

Ou simplesmente o morto idioma
Que nenhum homem d'hoje conhecera!
Sou a abstrata dor, sou teu sintoma

De alguma casual febre ligeira,
Enquanto, no meu peito, és o hematoma
Dos socos que meu canto, emudecera!...


( Laura Alves Coimbra)

Solidão

Aspiro à Solidão dos cemitérios...
Descomunal verdade onipotente!
Pois lá o meu cansaço deprimente
Descobrirá a causa dos mistérios

Da vida que ganhei já decadente,
Sem nunca a ter pedido aos véus etéreos...
Pequei por ser passivo aos vis critérios...
Pequei por ter nascido diferente...

Procrastinei a vida que me deram,
Talvez por não querê-la como minha;
Talvez porque as dores se apoderam

Da Alma que em silêncio se definha,
Talvez porque os ventres que nos geram,
Impõe-nos a Saudade mais mesquinha...

Filolatria

Eu venho nesta feita Nostalgista,
Te obrigar a ver-me esta Semana,
Não me frustres, Melissa, sejas mana!
Coloque-me no topo dessa lista

De requintada trupe tão bacana.
Eu sinto sede, insônia, dor na vista!
Por não gozar da glória Poesista
Da tua gargalhada doidivana.

Minha saudade obesa se recusa
Entrar mais uma vez em um regime,
E quer morrer, por isso te acusa

De não ser a homicida deste crime!...
De um neologismo hoje até abusa:
“Filolatria”, amiga, é o que a exprime.

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 5 de março de 2014

Estéril

A vida me privou da maior dádiva
Cedida pelo Pai formoso e etéreo,
Pois trago um ventre oco, um ventre estéril;
Um ventre de inutilidade impávida!
Sou fêmea, mas sou só pela metade...
Invejo abertamente outras mulheres,
São elas que me deixam por piedade
Beijar os seus bebês; meus malmequeres...
Prostituir-me – Indago - É uma saída?
Sujar-me e declará-la uma profissão
Para vingar-me, enfim, da minha vida?
Ou enlouquecer da dor da solidão?...
Preenchei Senhor em mim este vazio!
Antes que eu seja peixe morto ao rio!...

(Laura Alves Coimbra)