Opúsculo de um Vencido

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sozinha

A vida vai passando e eu estou só,
Mas sempre estive só a vida inteira!
Sepulto tantos sonhos - Sou coveira
De uma esperança reduzida a pó...

Confesso ser sozinha e desgraçada.
Nenhum homem na vida me amou.
Talvez em dar-me alma, Deus errou,
Pois dessa vida eu nunca tive nada...

Meus sonhos, um a um, assassinei!
Num acesso inconsciente de loucura.
Ah, quantas vezes já me derrotei!...

E quantas outras cri nessa postura
De lírico Poeta a quem entreguei
O amor que levarei pra sepultura!

( Laura Alves Coimbra)

Nexo

Querer-te unicamente para o gozo,
Fará de mim um monstro desprezível?!
Esperas que eu te seja um cão raivoso
E, do ciúme, desça ao baixo nível?

Ingênua Rosalina, é impossível!
Não tenho vocação para ser Bozo!...
Meu egoísmo não é perecível
E meu Amor é chulo e até viscoso...

“Foder que é destino dos humanos!”
“Nascemos e morremos pelo sexo!”
E o resto é apologia e desenganos...

Meu côncavo cavando o teu convexo
O mênstruo e a porra colorindo os panos!...
Eis o que faz o amor ter algum nexo!

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Musa Pós-Moderna

No esdrúxulo lamento da inércia,
A glória de meus sonhos, consumi...
Julguei não te amar e, então, sofri.
Ó meu defunto amor; minha Natércia!

Não posso crer, ó Deus, ela se foi!...
Chorosa Patativa abençoada!
Pelo meu falho adeus, Deus me perdoe!
Perdoes a minha lágrima adiada.

Cadavérica Musa d’olhos tétricos,
Necrófilos Prazeres te dedico!
Beijando os teus lábios assimétricos

Só as tuas carnes podres, Santifico.
E à inveja de outros mortos hipotéticos,
Aos meus, teus excrementos, unifico!

( Queiroz Filho )

Apogeus

Apogeus (Para Ninha)

No tenebroso Inferno que é a vida,
Sagrou-se a minha Alma, irmã da tua,
Por isso em tuas lágrimas estua
O fel da minha dor incompreendida.

Só o teu materno Espírito altruísta
Ergueu-me ao limiar dos Apogeus;
Depositou-me sobre as mãos de Deus
E fez de ti meu sábio João Batista...

Oh! Mãos de absoluta plenitude,
Às tuas Sacras sombras nos transporte!
Se aqui te amei abaixo do que pude,

Refaz meu coração; O desentorte!
Dessa Alma boa, ensina-lhe a Virtude,
Ensina-me a ter Paz n’hora da morte.

(Queiroz Filho)

Cafajeste!

Bizarro é o teu clitóris de hiena!
Mulher de ancas ásperas e fartas,
Meu sexo marcou todas as cartas
E bagunçou os textos de tua cena...

Trepar contigo nem valeu a pena,
Desperdicei debalde a minha quarta!...
A tua estranha espádua de lagarta
Somente de verrugas anda plena!

Que madrugada trágica tivemos!...
Num mar te afundei... Roubei teus remos!...
E ainda assim me queres novamente?!...

Eu sei que fui um Deus em tua cama!
Mas teimo em desprezar a quem me ama,
- Dos cafajestes sou o mais carente!...

(Queiroz Filho)

Soneto

Eu tanto amei na vida agora basta!
Punhados derradeiros de Ventura...
Oh céu de minha extinta estrela casta!
De ti meu nada espero nessa altura.

A morte nunca me será madrasta,
Também não chamo a vida de amargura,
A alma humana é triste, mas é vasta!...
Se flores nascem até na sepultura

Morrer é só alcançar Dignidade.
É ver na treva atroz, subterrânea,
O estandarte audaz da Liberdade!

É abandonar enfim toda a insânia
Do mundo e ver na sua Iniquidade
O caos duma Razão extemporânea...

( Queiroz Filho )