Opúsculo de um Vencido

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

À Espera

Na intermitente treva Diabólica
Um Anjo Apocalíptico me espera,
Seus olhos de enraivecida fera,
Ocultam sua farta força Eólica.

Que deixará a Terra apoplética
Ao derramar seu ódio Infernal
Na forma de um bruto vendaval,
Expondo a carcaça esquelética

Dessa amaldiçoada Raça humana...
Que na ânsia de calar sua sede insana
Fará das próprias vísceras seu odre!...

E nesse Holocausto tenebroso,
Deus me dirá de seu trono formoso:
- Agora bebas tu, teu sangue podre!...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Após ler Diego El khouri

Demônios feladores dançam ébrios
Sobre as sangrentas costas do Senhor,
Enquanto um Rufião - Seu cozinheiro!
Vai temperando as carnes judiadas

No Karma das memórias fuziladas...
Cantando: - we are the champions, trouxas!...
De Príapo, o caralho quilométrico,
Assiste-se enroscar-se sobre Eva,

Que o século das Lilithis, anuncia!...
Oh! Buceta-portal, Anatematize-nos!
Lavando-nos com esse gozo ácido!

Pois há tanto já estamos costumados...
Se Deus existe é um Anjo Kaiowá
Que se matou por nojo aos seus filhos!...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Anúncio!

Procura-se uma alma entrevada
De apenas quatro séculos de vida,
Por um nefasto ente, desprezada,
E por seus próprios sonhos, iludida!

Foi vista numa noite ensolarada
Furtando oito réis duma mendiga,
Bem próxima ao beco da almofada,
Regendo dos defuntos, a cantiga...

Com olhos cor de vinho estragado
E uns cílios de Cocote reencarnada;
O seio esquerdo de anjo maculado

E o oposto de Esfinge assexuada;
Devolução não quero, mas cuidado!
Acha que Bonaparte é carne assada!...

( Laura Alves Coimbra )

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Dona Saudade

Dona Saudade hoje está confusa,
Feriu-se com alguma estranha seta,
Dona Saudade, minha amiga intrusa!
Que exala ares de um triste poeta,
Diz que nem o amor hoje lhe bajula,
Nem a dama triste do viril caixeiro,
Pois sem esperança, sua fé se anula,
De rever o amor, dantes verdadeiro,
Dona Saudade, sei que estás amando!
Digas para mim, quem é o felizardo?
Dona Saudade, já se foi chorando...
Sem sequer notar meu sorriso pardo.
Por não revelar-te um velho segredo:
Que és o meu amor e o meu degredo!...

( Laura Alves Coimbra )

Sono...

Eu trago os olhos turvos de sentir
A vida em seus íntimos recantos...
Doei-me a tantos sonhos, tantos!
Que hoje já nem sei os distinguir...

Meu coração, nem ele quis ouvir
O réquiem tedioso dos quebrantos,
Regido por demônios e outros santos!...
Que me apontaram a hora de partir.

Num sono divinal, contemplativo!
Em que não se difere um ser vivo
Daqueles que já foram iniciados...

Aonde nem o Tempo em si existe,
E o próprio pensamente ali se assiste,
Crendo que nunca fomos acordados...

( Laura Alves Coimbra )

Coerência

O triste e preguiçoso descontente;
O amante e a sua musa mais presente;
O bardo com seu estilo decadente;
O erro e o seu tropeço deprimente;

A rima enfadonha sempre em ente;
O verso que encalhou na sua mente;
A moça que passou mais sorridente;
A estúpida alma estrábica da gente;

O gozo de quem ama diferente;
A inspiração tardia e displicente;
Saudade incontrolável do Presente;

Vadia! Me expulsou da sua mente!...
Quem diz que um Presidente é Prudente?...
Suspeito - A coerência está ausente...

( Queiroz Filho )

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Filosofia Barata

A vida é uma ampulheta do desejo,
E seus suaves grãos caem conforme
O grau que se deseja: - Se enorme,
Tu alcançarás o louro mais sobejo!

Mas se acaso, o medo por ensejo
De tua atroz fraqueza já disforme,
Romper-te essa bravura uniforme,
Apegue-se na fé que hoje cortejo:

Gozes à exaustão, faças teu mundo!
Tenhas por profissão, ser vagabundo,
Dinheiro emprestado, só o do irmão!

Case com uma idosa endinheirada,
Saudades – sempre as deixe pela estrada,
Substitua o Amém por um Perdão...

( Queiroz Filho )

Almas Abertas

Só a tua boca esbelta me seduz,
E o teu olhar de moço reservado
É o que hoje na vida me conduz
Ao meu conto de fadas censurado...

Excelso espelho vivo das paixões!
Que cá distante ainda me fustiga
Por trás de mil delírios e canções
Recrias-me a vontade mais antiga

De penetrar na luz de teu segredo
Pra entender, amor, porque tens medo
Do amor de quem, a vida, te oferta?

Amar, amor, não é só estar ao lado...
Saudade não é dor para um mimado
Que de carinhos teve a alma aberta!...

( Laura Alves Coimbra )

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Assombro

Nas minhas solitárias madrugadas
Um espectro maligno me assombra,
Tapando-me a boca com a alfombra
De minhas ilusões tão desgraçadas...

E eis que vago por encruzilhadas,
Fugindo dessa abominável sombra!
Crendo ser esse transe, essa lombra,
A súplica das Almas confinadas

No asqueroso fosso do Inferno,
Sonhando reaver no mundo externo
A envaidecida Dor dos infelizes...

Mas súbito uma voz rude de trovão,
Murmura-me a gemer na escuridão:
Não existem corações sem cicatrizes!...

( Queiroz Filho )

Pesar

No turbilhão da vida merencória
Trouxeste na euforia decrescente,
A mais particular e íntima estória
De abdicados sonhos, fatalmente,

Lançados no abismo da memória:
Paixões assassinadas lentamente
Pela vaidade esdrúxula e ilusória
De reviver o velho amor ausente.

Entrelaçando vidas tão opostas
Num círculo de mágoas e rancores,
Até que tombem todas as apostas

E, enfim, na solidão e sem amores,
Vejas que até o amor te deu as costas
E agora só o pesar rega tuas flores...

( Queiroz Fiho )

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Má Lição

O acento vai aqui, esse é o primeiro!
O outro que já foi, ponho outra vez!
Tu deves colocá-lo aqui no dez...
Metrificando-o, enfim, já por inteiro.

Soneto, meu amigo e companheiro!
Te sinto com fervor e embriagues!
Meu muro sem cimento, és talvez
Mais frouxo que buceta de puteiro!

Eu rogo-te mais essa inspiração!
Cimento, areia e água, mande logo!
Os onze versos teus já aqui se vão!

Não sou poeta bom, nem ouço Bach!
O que mais eu coloco? Hebe morreu!...
Oh! Errei toda a lição, deixa pra lá!...

( Queiroz Filho )