Opúsculo de um Vencido

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Reflexo

Não espero fazer falta quando for...
Não quero ter um amor que me lastime.
Se mesmo em vida a morte me oprime,
Darei a minha morte o meu amor!

Se a consciência é Paz; se ela é dor;
Se a paz em demasia me comprime,
A dor será meu cúmplice no crime
De ser do altruísmo, um desertor?

Quando a velhice for um adversário,
Aonde eu buscarei tua companhia?
Quem lembrará o meu aniversário?

Que filho beijará minha mão fria?
Morrer é mais que um ofício solitário,
É ser na Noite a Luz do meio-dia!...

Queiroz Filho

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Arcano Rei

Nas trevas teu olhar me ilumina:
Consolador farol sobre o meu cais;
Esmagador de Harpias colossais;
De ódios que o peito contamina.

Tu és a áurea Luz da minha Paz;
A epifania astral do Amor supremo;
A supraconsciência em grau extremo
E a redenção cabal de Satanás!...

Oh, aurora azul da Babilônia nova!
Desenterraste a minh’Alma da cova...
Por isso o teu pupilo, enfim, serei.

Em todo plano, espaço ou dimensão,
Só os veneráveis homens beijarão
Os teus sagrados pés, oh! Arcano Rei!...

Queiroz Filho

Sublimação

Quando em animalesco Gozo altivo,
Sobre teu corpo em fogo, os dentes, ranjo!
Iço-me aos Céus num voo imperativo,
Indo à batalha astral contra teu Anjo.

O Semideus do Sonho primitivo,
Que te furtou de mim com seu arranjo
De orquestral primor sublimativo,
Vindo de seu arguto e exato banjo.

Armei-me, aí, da Luz do olho de Hórus;
No Estige imunizei todos meus poros...
Na mais longínqua estrela, o aguardei:

Robusto, Esbelto, Audaz e poderoso.
Porém, quando o avistei... Fim tenebroso!...
Aos pés de Belphegor, lá me prostrei...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sozinha

A vida vai passando e eu estou só,
Mas sempre estive só a vida inteira!
Sepulto tantos sonhos - Sou coveira
De uma esperança reduzida a pó...

Confesso ser sozinha e desgraçada.
Nenhum homem na vida me amou.
Talvez em dar-me alma, Deus errou,
Pois dessa vida eu nunca tive nada...

Meus sonhos, um a um, assassinei!
Num acesso inconsciente de loucura.
Ah, quantas vezes já me derrotei!...

E quantas outras cri nessa postura
De lírico Poeta a quem entreguei
O amor que levarei pra sepultura!

( Laura Alves Coimbra)

Nexo

Querer-te unicamente para o gozo,
Fará de mim um monstro desprezível?!
Esperas que eu te seja um cão raivoso
E, do ciúme, desça ao baixo nível?

Ingênua Rosalina, é impossível!
Não tenho vocação para ser Bozo!...
Meu egoísmo não é perecível
E meu Amor é chulo e até viscoso...

“Foder que é destino dos humanos!”
“Nascemos e morremos pelo sexo!”
E o resto é apologia e desenganos...

Meu côncavo cavando o teu convexo
O mênstruo e a porra colorindo os panos!...
Eis o que faz o amor ter algum nexo!

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Musa Pós-Moderna

No esdrúxulo lamento da inércia,
A glória de meus sonhos, consumi...
Julguei não te amar e, então, sofri.
Ó meu defunto amor; minha Natércia!

Não posso crer, ó Deus, ela se foi!...
Chorosa Patativa abençoada!
Pelo meu falho adeus, Deus me perdoe!
Perdoes a minha lágrima adiada.

Cadavérica Musa d’olhos tétricos,
Necrófilos Prazeres te dedico!
Beijando os teus lábios assimétricos

Só as tuas carnes podres, Santifico.
E à inveja de outros mortos hipotéticos,
Aos meus, teus excrementos, unifico!

( Queiroz Filho )

Apogeus

Apogeus (Para Ninha)

No tenebroso Inferno que é a vida,
Sagrou-se a minha Alma, irmã da tua,
Por isso em tuas lágrimas estua
O fel da minha dor incompreendida.

Só o teu materno Espírito altruísta
Ergueu-me ao limiar dos Apogeus;
Depositou-me sobre as mãos de Deus
E fez de ti meu sábio João Batista...

Oh! Mãos de absoluta plenitude,
Às tuas Sacras sombras nos transporte!
Se aqui te amei abaixo do que pude,

Refaz meu coração; O desentorte!
Dessa Alma boa, ensina-lhe a Virtude,
Ensina-me a ter Paz n’hora da morte.

(Queiroz Filho)

Cafajeste!

Bizarro é o teu clitóris de hiena!
Mulher de ancas ásperas e fartas,
Meu sexo marcou todas as cartas
E bagunçou os textos de tua cena...

Trepar contigo nem valeu a pena,
Desperdicei debalde a minha quarta!...
A tua estranha espádua de lagarta
Somente de verrugas anda plena!

Que madrugada trágica tivemos!...
Num mar te afundei... Roubei teus remos!...
E ainda assim me queres novamente?!...

Eu sei que fui um Deus em tua cama!
Mas teimo em desprezar a quem me ama,
- Dos cafajestes sou o mais carente!...

(Queiroz Filho)

Soneto

Eu tanto amei na vida agora basta!
Punhados derradeiros de Ventura...
Oh céu de minha extinta estrela casta!
De ti meu nada espero nessa altura.

A morte nunca me será madrasta,
Também não chamo a vida de amargura,
A alma humana é triste, mas é vasta!...
Se flores nascem até na sepultura

Morrer é só alcançar Dignidade.
É ver na treva atroz, subterrânea,
O estandarte audaz da Liberdade!

É abandonar enfim toda a insânia
Do mundo e ver na sua Iniquidade
O caos duma Razão extemporânea...

( Queiroz Filho )

sexta-feira, 14 de março de 2014

Rejeição

Respira a noite a Alma do mistério...
O vento frio galopa sobre as praças,
O céu escuro é um manto de desgraças
Ao filho que se arrasta ao cemitério

A ajoelhar-se diante de um túmulo
De murchas rosas rubras, adornado,
Seu coração é um prisma espedaçado
De rancorosas cores em acúmulo...

É o corpo de seu pai que lá estava.
O pai que não lhe dera um só carinho;
O pai que entre os irmãs, o rejeitava!

O pai que o alcunhava: Pobrezinho!...
Enquanto o filho, à cova, o relembrava:
Perdão, meu pai, se te amei sozinho!...

(Queiroz Filho)

quarta-feira, 12 de março de 2014

Ao Mestre com pavor

Augusta Alma triste e atormentada,
De hediondos sonhos humanistas...
Que Deus foi que turvou as tuas vistas?
Existe algum sentido para o nada?...

Ó meu apodrecido mestre exato!
Agora não és mais que carne morta,
Mas o que desde lado me conforta,
É que rompeste o arcano abstrato,

Roubando os tesouros do infinito...
Beijo teus ossos, mestre, em teus versos,
E na cósmica Angústia de teu grito

Vagueiam meus ouvidos, submersos.
Teu pergaminho tétrico é um Maldito
Apocalíptico uivo aos Universos...


( Queiroz Filho )

Desperdício

Toda a palavra em si é desperdício,
Por isso que te escrevo sem pensar...
Mas toda a forma em si é já um indício
Que um gosto lá está a se realizar...

E um gosto dissimula-se de vício,
Então, como eu te falo sem falar?...
Renego-me mulher e sou o solstício
Silenciosamente a te afagar!

Ou simplesmente o morto idioma
Que nenhum homem d'hoje conhecera!
Sou a abstrata dor, sou teu sintoma

De alguma casual febre ligeira,
Enquanto, no meu peito, és o hematoma
Dos socos que meu canto, emudecera!...


( Laura Alves Coimbra)

Solidão

Aspiro à Solidão dos cemitérios...
Descomunal verdade onipotente!
Pois lá o meu cansaço deprimente
Descobrirá a causa dos mistérios

Da vida que ganhei já decadente,
Sem nunca a ter pedido aos véus etéreos...
Pequei por ser passivo aos vis critérios...
Pequei por ter nascido diferente...

Procrastinei a vida que me deram,
Talvez por não querê-la como minha;
Talvez porque as dores se apoderam

Da Alma que em silêncio se definha,
Talvez porque os ventres que nos geram,
Impõe-nos a Saudade mais mesquinha...

Filolatria

Eu venho nesta feita Nostalgista,
Te obrigar a ver-me esta Semana,
Não me frustres, Melissa, sejas mana!
Coloque-me no topo dessa lista

De requintada trupe tão bacana.
Eu sinto sede, insônia, dor na vista!
Por não gozar da glória Poesista
Da tua gargalhada doidivana.

Minha saudade obesa se recusa
Entrar mais uma vez em um regime,
E quer morrer, por isso te acusa

De não ser a homicida deste crime!...
De um neologismo hoje até abusa:
“Filolatria”, amiga, é o que a exprime.

( Queiroz Filho )

quarta-feira, 5 de março de 2014

Estéril

A vida me privou da maior dádiva
Cedida pelo Pai formoso e etéreo,
Pois trago um ventre oco, um ventre estéril;
Um ventre de inutilidade impávida!
Sou fêmea, mas sou só pela metade...
Invejo abertamente outras mulheres,
São elas que me deixam por piedade
Beijar os seus bebês; meus malmequeres...
Prostituir-me – Indago - É uma saída?
Sujar-me e declará-la uma profissão
Para vingar-me, enfim, da minha vida?
Ou enlouquecer da dor da solidão?...
Preenchei Senhor em mim este vazio!
Antes que eu seja peixe morto ao rio!...

(Laura Alves Coimbra)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Vulgívaga

Se até essa mulher que te repele,
De murchos seios feios, desiguais!
E longas manchas roxas sobre a pele,
Consegue alguns carinhos joviais.

Se até essa vulgívaga enrugada,
Com porcas axilas catinguentas!
E sobrancelhas rudes, macilentas!
Confessa ser na vida bem-amada

Tu tens de admitir, pobre Zadig:
A tua autoestima está em xeque,
Quiçá por não ostentar um pinto big

Ou zeros à direita de teu cheque...
Talvez, ser de embriões, um assassino,
Não é um grande pecado que se peque!...

( Queiroz Filho )

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Soneto

Queria muito vê-la, mas não posso!
Há algo nessa casa que me prende,
Talvez algum alerta que transcende
A solidão que em versos cá endosso...

Uma ida té o portão, enfim, esboço.
Meus olhos vãos a luz do Sol ofende,
Recolho, então, de homem, meu destroço...
Só essa espessa treva me entende!...

Amar a Luz da aurora é fugir dela!
Pedir-lhe mil desculpas sucessivas,
Por lhe ofertar tão parca bagatela.

O inútil respirar das coisas vivas,
Meu ânimo de chumbo esfacela.
Na ponta duma agulha dançam ogivas!...

(Queiroz Filho)